A fonte em disponibilidade

A entrevista do sociólogo Leôncio Martins Rodrigues ao “Estadão” é típica de uma praga antiga da imprensa: a fonte em permanente disponibilidade, o pau para toda obra. Se não souber sobre o assunto, se não deu tempo de estudar, sem problema: apele para exemplos históricos e analogia, e tudo será resolvido.

Perguntado sobre o PAC, Leôncio vislumbra intenções de criar condições para o terceiro mandato do Lula. Razões? Veja só:

(…) Pode-se, pelo menos, apontar algumas áreas onde o PAC pode dar a Lula bons dividendos políticos?

A única coisa garantida é o conjunto de medidas que beneficiam diretamente os pobres. Não só porque é uma meta mais simples, que ele pode estimular diretamente, mas porque, creio eu, está no âmago de sua estratégia futura.

Não há nenhuma medida que beneficie diretamente os pobres. Se implementadas, terão relevância os incentivos ao saneamento e habitação popular. Mas, nesses casos, o governo federal é apenas o fornecedor de recursos. Os dividendos políticos sempre são de quem executa a obra, no caso,m os estados. Está óbvio, na resposta, que Leôncio não teve tempo de ler o PAC. Se não leu, porque essa ansiedade em dar a entrevista?

Que estratégia é essa?

A que, no decorrer do governo, crie e mantenha condições para que o presidente, no devido tempo, comece a trabalhar por um terceiro mandato. As propostas voltadas para o lado social, que mantenham simpatia e apoio entre os mais pobres, têm mais probabilidades.

Por esse princípio “científico”, todo governante em último mandato não pode adotar nenhuma política destinada a melhorar o desempenho de seu governo.

Mas desta vez ele faz um grande barulho, para um projeto que se estende por vários anos.

Ainda assim, politicamente ele vai depender de quanto o plano vai funcionar, de quanto isso vai significar em benefícios visíveis e diretos. Quero lembrar que, no início do primeiro mandato, eu fui dos primeiros a dizer que todo aquele discurso presidencial era só teatro. E o que vimos depois? Que não havia estratégia nem planos coordenando diferentes áreas, que o País não cresceu. Foram quatro anos de teatro. Não estou dizendo que vai ser igual, mas que no mandato anterior foi assim e não será surpresa se tal processo se repetir.

Aqui ele diz que, se no primeiro governo não havia estratégia nem planos coordenando diferentes áreas, logo não será surpresa se tal processo se repetir.

Então, em sua opinião, o PAC é uma estratégia destinada a garantir o continuísmo?

(…) me parece lógico que o presidente esteja preocupado – ele nunca dirá isso em público – com a inoperância dos primeiros quatro anos. Ele é esperto, um grande comunicador e tem um instinto de sobrevivência notável. Sabe que precisa apresentar alguma coisa. Aqueles mapas, com números e linhas, o tom seguro da ministra Dilma, tudo aquilo dá uma aparência séria e passa uma idéia de profissionalismo dos governantes.

Aqui diz que os planos apresentados passam idéia de profissionalismo. Assim como quando critica o plano, o elogio aqui é meramente em cima do show dos gráficos que viu sem analisar.

Isso já é um impacto político bom para o Planalto.

Sim, o plano começa com impacto. Mas, resumindo minha impressão, vamos esperar pelo menos uns dois anos e ver o que vai acontecer. O Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), anunciado com alarde no início de 2003, também parecia uma coisa instigante, promissora, e não deu em nada.

O início da mudança de linha do governo Lula se deu através do CDES que em praticamente toda reunião questionava a política econômica de Palocci e alertava para as questões do investimento e da política econômica pró-ativa. Foi no CDES que nasceu o crédito consignado, um dos pontos fortes do governo Lula.

O PT sabe que não tem candidato presidencial para 2010. O plano ajudaria Lula a ser um grande eleitor nas eleições de 2010?

(…) Não é fácil acreditar que, dispondo de uma aprovação, digamos, de 60% ou 65% no seu último ano, e tendo uma quantidade tão grande de subordinados na máquina petista e aliada, gente que não quer perder o conforto do poder, ele mande parar as campanhas em favor de sua permanência. E ainda o discurso de movimentos populares e sindicais, de que se ele sair o neoliberalismo volta e estraga todo o progresso obtido… Volto a dizer: não estou prevendo que isso acontecerá. Estou advertindo para que os analistas e os eleitores pensem nisso com seriedade. Um político competente nunca mostra as cartas que tem na manga.

Mas para isso seria preciso mudar a Constituição.

(…) Sim, e havendo condições e votos no Congresso, por que ele não o faria? (…) A história está cheia de golpes dentro da lei, mesmo em regimes parlamentares. Não apenas os casos célebres, como os de Hitler ou Mussolini, que montaram suas ditaduras depois de chegar legalmente ao poder.

Mais uma descoberta “científica” do professor. Hitler e Mussolini recuperaram as finanças de seus países, chegaram populares ao final do mandato e se tornaram ditadores. Logo, todo presidente que recuperar as finanças e chegar popular ao final do mandato, será comparável a Hitler e Mussolini. Se é assim, também quero ser sociólogo, porque é facinho.

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