A “jurisprudência” jornalística

Do Painel do Leitor, na “Folha” de hoje

Morte de diarista

“Li, com estranheza e indignação, a reportagem “Diarista de Cabral morre na fila do hospital” (Cotidiano, 4/1), pois os fatos apontados não correspondem à verdade. Em toda a minha vida pública, adotei a transparência, inclusive na distribuição de informações, como filosofia de trabalho. E isso não mudou desde que assumi a Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro.

Jamais nos recusamos a fornecer informações à imprensa. Daí a minha perplexidade ao ler uma reportagem tão repleta de incorreções. A bem da verdade, sinto-me na obrigação de fazer os seguintes esclarecimentos.

A paciente não morreu na fila do hospital. Chegou às 5h36 e, às 5h45, estava sendo examinada por um médico. Logo em seguida foi medicada e passou por exames, inclusive uma tomografia computadorizada.

Sendo assim, não é verdade que tenha ficado seis horas em um corredor aguardando atendimento. Ela ficou internada na sala de politrauma da emergência, e não em um corredor, como está no texto. Também não há registro de que ela tenha morrido por infarto.

A paciente teve três paradas cardíacas: a primeira às 11h20, que foi revertida, e a paciente foi colocada no respirador; a segunda, às 12h20, também foi revertida. A terceira ocorreu às 16h40, quando morreu.”

JACOB KLIGERMAN, secretário municipal de Saúde (Rio de Janeiro, RJ)

Resposta da repórter– Procurada pela reportagem, a assessoria de imprensa da Secretaria Municipal da Saúde limitou-se a informar que “todo o atendimento necessário nesse caso foi dado”.

Observação

Pela resposta do secretário, a reportagem errou nos seguintes pontos: 1) A paciente não morreu na fila do hospital. 2) A paciente não esperou seis horas pelo atendimento, mas nove minutos. 3) A paciente não ficou aguardando no corredor, mas em uma sala de emergência. 4) A paciente teve três paradas cardíacas e teve atendimento nas três. Ou seja, uma belíssima matéria sobre como uma paciente é bem atendida em um hospital público.

Porque foi cometida tal quantidade de erros? Porque “a assessoria de imprensa da Secretaria Municipal da Saúde limitou-se a informar que ‘todo o atendimento necessário nesse caso foi dado'”, e nada mais disse.

Culpa da repórter? Não necessariamente. A “jurisprudência jornalística” considera que não se deve elogiar serviços públicos de saúde. A repórter foi atrás da informação e teve o imenso azar de se deparar com um caso de atendimento eficiente. Ela não procurou: o caso é que chegou até ela. E como fica a “jurisprudência jornalística”, se ela não tratar de tirar o caso rapidamente do seu caminho?

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