A Máquina do Tempo de H. G.Wells

 

 


Esses dias vendo uma das muitas refilmagens/adaptações, do livro A Máquina do Tempo  de H. G. Wells me surpreendi com algumas percepções. Não sei se alguém já abordou o assunto dessa forma. De qualquer jeito, isso não é plágio, talvez só coincidência ou sincronicidade.


Escrito em 1895, portanto 28 anos depois do primeiro volume de O Capital, de Karl Marx, o livro de ficção científica fala de uma viagem a um futuro inescrutável; um mundo que passou por tantas catástrofes e cataclismos, que pouco, ou nada, restou de toda a história humana e suas realizações. Mas os humanos ainda estão lá.


Parecem viver uma vida idílica, divertem-se o tempo todo, são belos e elegantes e aparentemente num estado de eterna juventude, não há idosos entre eles, chamam-se Eloi. Parecem não ter com o que se preocupar. Suas necessidades são providas, em todos os níveis, de uma forma quase mágica. Todas as manhãs, frutas, mel e outros acepipes estão a disposição da turminha alegre que só quer saber de tomar banho de rio e curtir o sol, sem preocupações. Suas roupas sempre aparecem novas e limpas, sem que ninguém tenha que bater roupa nas pedras ou passá-las em ferros de carvão (já que parece não  haver eletricidade). Toda essa vida boa parece não ter preço, ou custo. Só uma coisa paira no ar, é extremamente perigoso andar pela noite.

 

É que esse é o território dos Morlochs. No decorrer da trama descobrimos que as duas raças são humanas, com desenvolvimentos diferentes. Os Morlochs, apesar de sua aparência selvagem, deformada e aterradora, dominam o que ainda se pode chamar de tecnologia, usada para manter os Eloi numa situação abençoada de não ter que trabalhar para se manter. A desagradável pegadinha é que os Morlochs são canibais, adoram uma carninha mal passada, e a preferência absoluta, de 11 entre 10 Morlochs, é por carne de Eloi, crua se possível.


Cabe aqui começar uma análise mais profunda da trama e do enredo, e das intenções ocultas do autor. Eloi provavelmente tem origem em Elohim, termo judaico que aparece na Bíblia relacionado a DEUS, logo traz em si uma origem divina,. Enquanto Morloch é indiscutivelmente associado a Molock, uma divindade primitiva a quem se sacrificavam criancinhas, um ser demoníaco, não sei onde já vi isso.  As coisas então começam a se tornar mais claras. Estamos em 1895, a classe proletária começa a surgir com força e a incomodar os bons vivants, que jamais haviam se preocupado com a origem de seu conforto. 


É claro, pela narrativa, que se demonstra uma dicotomia entre os dois grupos. Os belos Eloi, classe dominante, mas dominada, e os Morlochs, dominados e dominantes, horrorosos e selvagens, que tocam, no submundo escuro e cheirando a enxofre, as engrenagens que permitem a boa vida dos Eloi.


Proletariado e aristocracia, assim se traduz a visão deturpada do Wells em sua fantasia futurista. Só que nesse mundo futuro, vivendo uma harmonia falsificada, um acordo não escrito em que os Eloi não questionam a origem de seu bem estar, ou as regras que fazem com que sejam colhidos e consumidos ao atingir a maturidade sexual, e após procriar, para manter a churrascaria Morloch em funcionamento. Numa tentativa bem disfarçada, mas canhestra, o intuito do autor é mostrar a classe proletária como feia, selvagem e canibal, disposta a tudo pra se aproveitar dos belos e inocentes Eloi.


Vemos então que a canalhice de criminalizar movimentos sociais vem já, desde os primeiros anos da luta de classes.

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