A mistificação do simples

O trabalho do inacreditável grupo de conjuntura do IPEA traz as seguintes soluções para problemas complexos:

1. No caso da Universidade, bolsas individuais para aluno.

2. No caso da segurança pública, penas mais severas.

3. No caso da saúde, maior participação do setor privado no SUS.

Vamos pegar apenas um dos casos — o das Universidades – para entender o modo de raciocínio que batizei de “cabeça-de-planilha”.

A questão da Universidade pública engloba as seguintes questões:

1. Como ela se insere dentro de uma política científica e tecnológica para o país. Há todo um universo de sub-questões aí, como a interação com o setor privado, o papel das agências de fomentos, os parques tecnológicos, a importância de se constituir centros de excelência.

2. Como deve ser seu papel como formadora de pessoas. A discussão também é ampla.

3. O financiamento da Universidade. Em qualquer parte do mundo, os grandes centros de excelência são financiados, em grande parte, pelo poder público. A discussão sobre a gratuidade, no fundo, é desculpa para se discutir questões muito mais relevantes, como os sistemas de avaliação externos das universidades, o envolvimento dos alunos etc.

Está se caminhando, ainda que lentamente para isso, com modelos de avaliação nos provões da vida. Há discussão sobre sistemas de avaliação na CAPES. Mas precisa se ir muito mais fundo nesse trabalho.

Agora, vem o inacreditável grupo de conjuntura do IPEA e reduz todo esse mundo complexo – e fundamental para o crescimento — meramente à questão do financiamento do aluno. E produz a solução mágica: transferir os recursos da universidade pública para o aluno – que escolherá onde estudar.

Toda a energia da Universidade pública, e todos os desdobramentos de seu trabalho, serao focados em atrair o maior número de alunos para poder se financiar.

Vamos ver os problemas a que essa perda de tempo induz:

1. Como ficará a montagem de políticas continuadas na Universidade, sem a garantia de uma fonte estável de financiamento?

2. As universidades privadas gastam muito mais em marketing do que em capacitação dos professores; dão ênfase muito mais a cursos de ocasião, do que à melhoria continuada dos cursos. Se as universidades públicas passarem a ser regidas apenas pela busca de alunos, o que ocorrerá com a qualidade da pesquisa acadêmica e com outras áreas que se destinam a uma elite de alunos?

Estou falando de questões que são do conhecimento de parte dos leitores do Blog, e que produziram discussões amplas aqui. Quem leu e participou sabe da complexidade do assunto. No entanto, toda essa realidade complexa, que envolve especialistas do mundo todo, foi reduzida a essa saída mágica à Giambiagi.

Agora transportem esse mesmo tipo de simplismo intelectual para a análise da economia. O padrão de raciocínio é idêntico. Definem um item como relevante (as contas públicas) e submetem todo o modelo econômico a uma única prioridade, sem atinar para o conjunto, para as externalidades, para as conseqüências, para a visão mais ampla de crescimento e modernização.

E esse tipo de simplismo absurdo encontra amplo eco na mídia, a ponto de um trabalho desse nível merecer matéria no Jornal Nacional (segundo informação de um leitor). Existe uma “taxa de ignorância líquida” na mídia como um todo que impede qualquer avanço em discussões mais sofisticadas e complexas.

E aí se cria esse círculo de mediocrização que só abre espaço para a esses elixires da longa vida.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora