A ortotanásia

Meu pai teve um segundo AVC em 1987. O primeiro havia sido em 1974. Morava no mesmo prédio que eles, para poder dar-lhes assistência. Quando minha mãe telefonou desesperada, desci até seu apartamento. Carregamos com muita dificuldade até o carro e rumamos para a Beneficência.

Lá, foi atendido por um clínico geral com vocação autêntica de médico. No começo da noite apareceu com um neurologista. Os exames de raio-x estavam prontos e mostravam que o cérebro estava murchando. Perguntei se era o fim. Responderam que sim, que nem tinha o que se discutir.

Minha mãe tinha apenas 62 anos, mas era portadora de hipercolesterol, já se submetera a duas operações de safena e, nos últimos 13 anos, se desdobrara em cuidar de meu pai, com um denodo admirável. Fui claro: “Doutor, se o senhor tentar prolongar sua vida, vai abreviar a vida da minha mãe”.

Foi em vão. No dia seguinte, meu pai entrou em uma crise brava. E os médicos resolveram levá-lo para a UTI. E o que um filho pode fazer? Postar-se na frente da maca e impedir, com todos os bloqueios emocionais que a situação cria?

Depois de trinta dias, o corpo saiu vivo, ele não, já em estado vegetativo. Quando veio a conta, entendi a motivação do neurologista, sujeito ambicioso que, nos intervalos, vinha conversar comigo e perguntar se eu tinha acesso a montadoras para conseguir-lhe um carro zero: trinta dias de honorários médicos.

O velho voltou para casa. Foram quase dez meses estendido na cama, assistido por uma enfermeira e pelo sofrimento diuturno de minha mãe. Depois que descansou, minha mãe durou menos de um ano.

A decisão do Conselho Federal de Medicina (CRF), tomada esta semana, de autorizar a ortotanásia (desligamento de aparelhos que mantém os pacientes artificialmente vivos) é um ato de caridade e uma medida que, indo contra os interesses de profissionais menos escrupulosos, engrandece o Conselho.

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