A rainha e a princesinha

Dá série As Voltas que o Mundo Dá.
Há exatamente cinco anos, publiquei a coluna abaixo. Vendo Angélica na TV, hoje, vitoriosa, equilibrada, vida familiar composta, preservando o filho (ou seria filha) da exploração comercial, me lembrei da coluna.

A cena é patética. Em primeiro plano, a rainha dos baixinhos, Xuxa, comandando seu programa. Em segundo, a princesinha derrotada, Angélica. O diretor de televisão é cruel com a princesinha, deselegante com a convidada. Escolhe um ângulo em que a rainha fica enorme e a princesinha pequena, acuada e deixa a câmara lá, saboreando a vitória da sua estrela.

A rainha mantém aquele olhar permanente de chorosa entediada. As palavras não revelam muita coisa, são balbuciadas, seguindo o script. Já a princesinha tem a mente viva, é muito mais articulada, mas o semblante é de uma derrotada.

No meio daquele jogo de palavras (a rainha fala uma palavra e a princesinha responde de bate pronto) a escolha meticulosa de palavras que ferem, “sucesso”, “fracasso”, “felicidade”. A princesinha vivaz entra no jogo, com a compulsão dos que se auto-flagelam, e se arrepia quando houve a palavra “fracasso”. Fala que em determinado período da vida resolveu viver mais, desconcentrou-se e deixou-se prejudicar profissionalmente.

Xuxa com suas palavras de ajuda, diz que agora vem um novo milênio e tudo se resolverá. A princesinha diz que já está virando o jogo. Prova disso é que estava ali, no sofá da antiga arquiinimiga (!), a Xuxa, fazendo autocrítica, lamentando o fato de ter pretendido disputar o trono com a eterna rainha. Diz com firmeza, com os quilos a menos que a deixaram novamente linda, com raciocínio articulado, mas com os olhos embaciados, de quem joga a toalha.

Confesso que disputas entre rainhas de baixinhos e grandinhos nunca me seduziram, a não ser no jogo de interesses mercadológicos envolvidos. Mas é sumamente interessante especular sobre os aspectos pessoais envolvidos nesses jogos de muito dinheiro, principalmente quando, por trás, existem pessoas de carne e osso.

Alguns anos atrás, a rainha já estava envolvida com suas questões existenciais e com seu olhar de chorosa entediada, e a Angélica subindo como um foguete. Meus indicadores de opinião -filhas começando a entrar na adolescência—eram francamente favoráveis à princesa. Angélica virou página amarela da “Veja”, em uma entrevista bastante articulada, inteligente, onde ficava patente que tinha traçado um objetivo profissional: ser a nova rainha.

O que faz uma figura pública cair no agrado ou no desagrado da opinião pública e da mídia? Difícil precisar esses processos. O fato é que a carreira de Xuxa estava em decadência e a de Angélica em ascensão -e por trás delas, os milhões de reais em royalties de licenciamentos de produtos e de patrocínio de programas.

O ponto de inflexão da decadência da Xuxa e da ascensão de Angélica foi a gravidez da rainha, uma gravidez calculada, dentro de uma estratégia de marketing esplendidamente planejada, embora execrável do ponto de vista pedagógico. A gravidez mudou o foco da mídia. Cada passo foi acompanhado, cada semana, cada dia. O parto mereceu cobertura de Jornal Nacional, quinze inexplicáveis minutos, se não me engano. E aí a princesinha desestabilizou emocionalmente.

Nesses momentos, buscam-se outras formas de compensação e a princesinha descobre-se gente. Passa a curtir novos amores, complicados, deixa-se engordar, a simpática espontaneidade dá lugar a modos afetados, e todo o edifício mercadológico erigido em torno dela ameaça desabar.

Quando estava a poucos metros de atingir seu objetivo, de repente ela fica quilômetros atrás. E ei-la agora, no sofá da Xuxa fazendo autocrítica (de quê?), pedindo desculpas, penitenciando-se.

Tais processos não são incomuns entre celebridades. Infelizmente há poucos estudos para que os investidores dessas marcas personalizadas possam avaliar devidamente o chamado “risco emocional”. Daí a enorme diferença entre Pelé e os demais. Soube ser grande em campo e estupendo para administrar a marca, depois da aposentadoria. E daí, também, a enorme diferença que é ter uma Marlene Mattos planejando a carreira. Para quem pensava que Marlene era uma mera empresária eis a resposta.

Mas a princesinha continua com os olhos vivos, a inteligência aguda, e mais bonita do que nunca.

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