A rede venceu

Há uns dez anos, o Reinaldo, um japonesinho gênio, meu guru para a área de informática, veio me contar a grande nova: uma tecnologia desenvolvida pela Citryx, empresa americana, que permitia que, a partir de um servidor – local ou remoto – baixar programas até em máquinas XT, e rodar usando a memória do servidor. Me dizia ele: “Essa tecnologia mudará a história da Internet”.

Demorou, mas esse dia chegou com a maturidade da Web 2. E pergunto, como ficará a Microsoft nisso?

Primeiro, a Microsoft tinha a vantagem de dominar o sistema operacional, primeiro o DOS, depois o Windows. Utilizou essa vantagem cometendo toda sorte de abusos, não abrindo os códigos para os concorrentes. Com essa manobra, conseguiu alijar todos os grandes desenvolvedores de aplicativos da era DOS, a Boreland e seu Quatro Pro, o Wordperfect, a Lótus e seu 123, o Wordstar, o Visicalc, o Supercalc, e tantos outros programas que fizeram história.

Quando os concorrentes começaram a aprender a atuar, ela se prevaleceu do controle sobre os formatos hegemônicos. Eu podia gostar do Amipro ou do Smartsuite, mas não usava porque não conseguia falar com o Word e o Excel.

Quando a padronização avançou e os concorrentes desenvolveram interfaces para ler os programas do Office, a Microsoft passou a se valer da integração com seus sistemas de rede. E aí se revelou o gênio de Bill Gates.

Lá atrás, quando começou a era da micro-informática, além do sistema operacional a Microsoft avançou na tecnologia de redes (matando a Novell), nos bancos de dados (conquistando nichos de pequenas e médias empresas), no navegador (matando o Netscape), e outros sistemas de infra-estrutura. E essa integração entre Exchange, SQL, depois o Sharepoint garantia uma sobrevida à família Office e ao Windows – ainda os carros chefe da companhia.

Esse momento acabou, e Bill Gates se aposentou. A rede avançou, amadureceu, definiu critérios de padronização e confirmou a predição do jovem desenvolvedor do Netscape, que sonhava que, a partir dos navegadores, acabaria o predomínio do Windows como sistema operacional e do Office como aplicativo.

A partir do navegador, em setores de larga abrangência – como pesquisa, email e aplicativos – os concorrentes chegaram com uma tecnologia superior, recuperando os valores da simplicidade (que a Microsoft perdeu, criando programas cada vez mais complexos e funcionalidades cada vez menos essenciais) e um modelo de negócios muito mais eficiente, conquistaram os novos mercados. Qual o melhor buscador do meu desktop com sistema operacional Windows? O Google. Qual o melhor buscador dos meus e-mails que ficam no Outlook? O Google.

Ao mesmo tempo, o trabalho em rede, que já se consagrara no desenvolvimento do sistema operacional Linux, ganhou a maturidade com o extraordinário Firefox e o Thunderbird. Os aplicativos da web encontraram sua linguagem universal no Java, da Sun. Os aplicativos explodiram depois que a Sun colocou o Staroffice à disposição da comunidade. Agora, o próprio Google começa a oferecer os aplicativos virtuais, que podem ser baixados gratuitamente através da Internet. O Linux avança em desktops. E se tem a oportunidade, pela primeira vez, da massificação do mais perfeito sistema operacional da era dos PCs, o da Apple.

A Microsoft tenta avançar em todas essas frentes. Lançou o bom Live Messanger, tem o Hotmail. Mas não há mais os ganhos de sinergia. Agora, cada produto desses tem um CEO à frente. Só que, em cada frente, há um projeto de Bill Gates dirigindo cada concorrente.

A rede venceu.

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