A tenda dos milagres

Essa acusação de lideranças tucanas e pefelistas, de que a culpa pelo mau desempenho de Geraldo Alckmin foi do seu marqueteiro Luiz Gonzáles não resiste e dois minutos de reflexão.

Vamos às diferenças entre o primeiro e o segundo turno:

1. No segundo aparece o Geraldo guerreiro, criando um choque com o Geraldo moderado do primeiro turno. Ora, a pressão maior foi das lideranças carbonárias da oposição, de colunistas e dos jornais, que queriam um El Cid Campeador. O erro de Gonzáles e Alckmin foi terem cedido a essas pressões. Mas o erro maior foi de quem pressionou. Se Alckmin não tivesse mudado o estilo, estaria perdendo de menos, mas perdendo, e Gonzáles seria mais crucificado ainda porque não ouviram os “experts” carbonários.

2. Grande parte do jogo foi decidida nas alianças para o segundo turno. Enquanto Lula saia costurando aliança por todo o lado, Alckmin se embatucou na aliança com Garotinho. Não me consta que marqueteiro seja responsável por alianças políticas.

3. O grande nó da campanha foi a falta de definições programáticas de Alckmin, quando embatucou sobre privatização, sobre controle de gastos públicos. Ora, programa político é de outro departamento. Alckmin indicou João Carlos Meirelles como responsável por seu programa político. Meirelles aceitou as pressões de Tasso Jereissatti e colocou como responsável pela parte econômica um economista, Samuel Pessoa, ligado à área mercadista do PSDB. Depois trocou por outro economista, Antonio Buainaim, da Unicamp, ligado à área tecnológica. Só então entraram Yoshiaki Nakano e José Roberto Mendonça de Barros. Havia muitos quadros competentes trabalhando os diversos pontos do programa. Só que o coordenador Meirelles não deu conta do recado. Algumas semanas antes do primeiro turno, o programa não estava pronto, era uma massaroca de propostas que não havia sido costurada por ninguém. Jogaram tudo no colo de Yoshiaki Nakano, que preparou um documento de cinqüenta páginas, consolidando alguns pontos e explicitando mais as idéias econômicas. Alckmin recebeu o rascunho e começou a revisá-lo. Dez dias antes das eleições do primeiro turno, ainda não havia sido definido o documento final, porque Alckmin ainda estava revisando.

4. Quando começou o segundo turno, Alckmin se enredou na falta de idéias próprias e de definições partidárias. O partido continuou preso à herança de Fernando Henrique Cardoso. FHC continuava preso obsessivamente à necessidade de defender a sua obra. E Alckmin preso a uma herança que ele não tinha vontade em defender, e novas propostas que ele não tinha claro em sua cabeça.

5. Não adianta deblaterar contra a “mentirobrás” do PT. Houve cascas de banana dos dois lados. Do lado da oposição, lançaram-se balões, tipo se Lula tivesse uma vitória graúda, revelaria seu lado Hugo Chaves; ou que a Bolsa Família não exigia contrapartidas; ou que as contas públicas iriam estourar. Do lado petista, a história de que Alckmin iria privatizar o Banco do Brasil e a Petrobrás ou acabar com a Bolsa Família. O problema é que, nesse tiroteio, Alckmin piscou. E piscou porque o PSDB se perdeu, nessa era FHC, na falta de definições programáticas.

Em suma, Alckmin foi derrotado de muito por jamais ter desenvolvido idéias claras sobre como pretenderia governar, e porque ficou preso à falta de definições programáticas do PSDB. E porque o adversário era forte, é óbvio. E aí não tem marqueteiro que resolva.

Me lembra uma senhora de Poços de Caldas, na minha adolescência, muito sem atributos físicos, que entrou no Salão de Beleza de Darcy Cabeleireiro e pediu:

— Eu queria que o senhor me deixasse linda.

E ele:

— Minha senhora, isso aqui é um salão de beleza, não uma tenda dos milagres.

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