Ainda sobre o IPO do Facebubble

Um dos comentários a respeito do meu post sobre o IPO do Facebubble foi uma crítica, dizendo que o mercado de ações é assim mesmo, oscila fortemente, e está em alta hoje e depois pode cair, e que isso é normal.

Recentemente estive conversando com um amigo, que além de ser formado em economia, é investidor e conhece bastante o mercado e seus problemas. Um dos comentários dele foi de que nas últimas décadas, o valor financeiro das empresas com ações lançadas em bolsa teve uma sobrevalorização de 40% sobre os ativos reais das mesmas empresas.

Para entendermos o que isso significa, vamos fazer um paralelo com a emissão de moedas por um país: o valor da moeda de um país face às outras, pode ser definido como o total de riquezas que o país possui dividido pela quantidade de moeda em circulação. Isso significa que quando o governo emite mais moeda sem ter nenhuma contrapartida, ele na verdade está desvalorizando sua moeda, porém faz isso de forma homogênea para toda a sociedade. Pode parecer justo a princípio, mas sabemos que esse tipo de homogeneidade, tanto na desvalorização quanto nos impostos, não é ideal, pois o impacto dela para a população de baixa renda é muita maior do que para as mais abastadas.

Para entender melhor o paralelo que quero fazer, precisamos entender melhor o que é o capitalismo: ele não é um regime de governo, mas um sistema econômico, que tem como um dos seus principais objetivos a acumulação de riquezas. Um dos pilares do capitalismo é a livre oferta: se você não gosta de um produto, ou acha o preço excessivo, pode comprar de outro fornecedor. Teoricamente isso regularia o mercado, e todos seriam felizes.

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Porém o principal problema do capitalismo é que as empresas que possuem mais dinheiro conseguem ser mais competitivas, pois compram em maior quantidade, gastam mais em propaganda e distribuição, e podem exercer margens menores e muitas vezes negativas por um longo período para ganhar mercado (dumping). Com isso, a tendência natural é que as maiores empresas sufoquem as menores, em um processo exponencial, onde quanto maior a empresa, mais capacidade ela tem de sufocar as menores. Esse processo evolui até o ponto em que sobre somente uma, ou um pequeno grupo de empresas. A partir deste ponto, o normal é que ocorram grandes fusões, ou as empresas delimitem o mercado (cartel). Em qualquer dos casos, o principal pilar do capitalismo é desmontado, pois a livre oferta acaba, e você fica na mão de um único fornecedor. Por isso costumo dizer que o capitalismo é autofágico, ou seja, ele consome a sim mesmo.

Para evitar que isso ocorra, é necessária a ação forte dos governos como reguladores do mercado, controlando as empresa e agindo para equilibrar a relação de forças. Porém a supressão desta ação reguladora foi o principal ponto atacado pela teoria neoliberal, que prega a quase supressão dos governos como reguladores do mercado, e a venda das empresas estatais para a iniciativa privada. Com isso, a força de regulação dos governos é anulada e o “mercado” pode atuar da forma que achar conveniente.

A conclusão é que o capitalismo é muito eficiente como regime de acumulação de renda, e foi exatamente isso que vimos nas últimas décadas. Mesmo nos países “desenvolvidos”, onde a grande maioria da população melhorou o seu padrão de vida, essa melhoria foi concentrada nos chamados “um por cento”, que conseguem acumular riquezas muito mais rápido do que a média da população.

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Voltando então ao fio da análise, o que aconteceu na verdade com essa sobrevalorização dos ativos das empresas? Seguindo o paralelo do valor das moedas dos países, sempre que o valor virtual das empresas está acima do valor dos ativos, o que está ocorrendo é a pulverização do valor real. Mas se somarmos esse fato à exacerbação da acumulação de renda neoliberal, o resultado é que a pulverização do valor é proporcional, mas a acumulação não, pois é concentrada no poder econômico. Então o que ocorreu nas últimas décadas foi a estória do Robin Hood às avessas, onde se rouba das pobres para doar aos ricos. Só que isso é feito à surdina, disfarçado de “funcionamento normal do mercado”.

Por isso não acho que esse funcionamento seja normal, e acredito que deva existir uma regulação forte nos mercados financeiros, evitando esse tipo de bolha, e garantindo que apesar das oscilações o valor dos bens negociados tenha alguma relação com o valor real dos ativos. Não é uma tarefa fácil, e também não faço a menor ideia de como fazê-la, mas tenho certeza de que como está não dará para continuar. Afinal, não dei nenhuma procuração para que distribuam meus parcos recursos para ninguém.

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