Bucci e a mídia

É curiosa a carta que Eugênio Bucci enviou à “Folha”, pedindo retificação de declarações que foram suprimidas da entrevista concedida à repórter Vera Magalhães. Na edição, foi suprimida a afirmação de que a linha apartidária da Radiobrás “só foi viável porque teve o apoio do governo Lula”. E as críticas de Bucci a setores que defendem o apoio à “mídia independente” foram transformadas em críticas a todo o PT.

Na entrevista em questão, Bucci havia negado às pessoas do governo o direito até de “analisar a mídia”, o que é uma extravagância. Deve-se impedir o uso do poder de Estado para coibir à mídia. Mas jamais suprimir o direito de crítica ou de análise, que é inerente a qualquer ser racional.

Mas como se comporta o professor e homem de governo Bucci quando vítima da edição da sua entrevista? “Reafirmo que não cabe a governos ou a estatais fazer análise de mídia, tanto que interrompi as colunas que mantinha sobre esse tema quando assumi a presidência desta empresa. Mas é dever do servidor público, em respeito à própria sociedade, solicitar correções, quando necessárias, em notícias que lhe digam respeito. É o que faço agora.” Amar é não ter que pedir perdão.

É curiosa essa transformação de Bucci. O Bucci pré-Radiobrás era outro -e igualmente questionável. Certa vez tive uma polêmica com ele porque sustentava que o padrão Globo de qualidade dos anos 70 só teria sido possível pelo fato de ter ocorrido no regime militar, e o governo ter impedido a competição com as demais emissoras. Caso contrário, a Globo teria apelado ao popularesco, como ocorria na época da sua análise. Quando escreveu essa análise, Bucci tinha alto cargo na Editora Abril.

Ignorava o fato de ter havido uma competição acirrada nos anos 70 (Tupi, Record, Excelsior); de que havia uma profunda mudança no mercado de consumo e publicitário; de que para contentar o regime bastaria o documentário de Amaral Netto; e que o padrão Globo fazia parte da nova lógica do mercado de consumo moderno que se formava, na qual a análise das agências de publicidade privilegiava veículos com maior leque possível de consumidores-espectadores.

O “padrão Globo” foi um feito jamais igualado, de programação de altíssima qualidade conquistando audiência em todos os segmentos sociais. E só foi possível porque montou um time profissional de primeira qualidade.

Agora, o Bucci-Radiobrás dá uma volta de 180 graus, troca a visão conspiratória por uma visão idílica da mídia, mais uma vez fugindo do essencial. Ele avalia que a publicidade do governo deve ser distribuída de acordo com “critérios técnicos”. De acordo! Só que se exime de analisar o mercado hoje em dia, totalmente maculado pelos BVs (Bonificação de Veiculação), que os grandes veículos pagam às agências de publicidade para conquistar fatias maiores do bolo. Obviamente não se trata de uma prática de mercado. É uma distorção que fere amplamente qualquer norma básica de direito econômico dentro de uma economia de mercado, e que foi um dos grandes fatores a impedir a competição na mídia -um fator trágico porque, ao matar a competição, deixou a grande mídia acomodada, sem capacidade de inovação, resultando na atual crise de credibilidade.

Ora, Bucci não é apenas um “homem de governo”. É um analista da mídia e pessoa que ocupou alto cargo na Editora Abril. É impossível que não conheça essa realidade.

Tudo bem que homens de governo não possam analisar a mídia publicamente. Mas ao analisar políticas de publicidade não pode suprimir dados essenciais para entender o mercado atual. No fundo Bucci “editou” a sua análise de maneira muito pior do que a própria “Folha” o fez.

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