Crescer ou crescer

Coluna Econômica – 27/09/2006

Há dois enigmas a serem decifrados em 2007. O primeiro, como se comportará a economia mundial. O segundo, como se comportará o segundo governo Lula, na hipótese de ele sair vitorioso nas eleições.

Há sinais claros de um desaquecimento da economia global. Nas últimas semanas, desabaram a cotação de algumas matérias primas, como o petróleo. Essas cotações são muito influenciadas pelos mercados futuros, ou seja, dependem cada vez mais da disposição de especuladores de continuarem apostando na alta. Os enormes prejuízos no mercado de petróleo, sofridos por alguns fundos agressivos, os tornarão mais cautelosos nos próximos meses.

Ao mesmo tempo, depois dos têxteis e dos produtos de baixo valor agregado, a invasão chinesa está ocorrendo em várias frentes. Os super-investimentos que o país recebeu na última década começam a ganhar escala e a tomar o rumo do mercado externo.

Finalmente, há a questão da bolha imobiliária norte-americana, que começa a ser administrada com uma forte retração no mercado imobiliária e queda nos pecos dos imóveis. Os resultados somam-se aos dados divulgados pelo Departamento do Comércio na semana passada, que mostraram uma queda de 6% no número de casas construídas em agosto ante julho, e de quase 20% sobre agosto de 2005. Essa queda se reflete na capacidade de endividamento das famílias norte-americanas (já que cai o valor do imóvel que pode ser dado como garantia para um financiamento)

Até agora, o governo Lula voou em céu de brigadeiro. Montou uma estratégia econômica acomodatícia, privilegiando os lucros do setor financeiro e das grandes empresas. Trata-se de um processo autofágico, porque esse lucro é conquistado em cima de taxas de juros Selic (isto é, pelo aumento do endividamento público). Grandes exportadores ganharam alguma competitividade fazendo antecipação de exportação e aplicando em juros; bancos ganharam com Tesouraria (aplicando em juros) ou cobrando taxas de juros extraordinariamente elevadas.

Não adianta comparar seu governo com o de FHC. A comparação correta é entre o desempenho da economia brasileira versus a economia mundial nos dois períodos. Em ambos os períodos se verá uma economia estagnada em termos absolutos, mas piorando em termos relativos.

Agora se entrará na hora da verdade, de começar a preparar o país para o fim da bonança. Essa estratégia terá que ser montada levantando em conta uma guerra aberta entre Lula e a mídia.

É nessas situações, aparentemente insolúveis, que costumam aparecer soluções. A cada dia que passa, por exemplo, fica mais claro que não haverá espaço para desestabilização política a partir de janeiro. As grandes empresas estão se movendo, atores importantes se articulando para pressionar os dois partidos, PT e PSDB, para um pacto de governabilidade.

Por outro lado, ao começar o governo enfraquecido, Lula não terá mais que comprovar seu compromisso com a estabilidade. Mas terá que mostrar-se firmemente inclinado a abraçar o desenvolvimento. Seu governo enfrentará e vencerá qualquer tentativa de impeachment; mas não resistirá à soma da crise internacional com recessão interna.

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