De crimes e abutres

Do leitor André Santos

É desprezível a forma como tem sido tratado o caso Suzane von Richthofen. A parcialidade da imprensa e opinião pública mostra claramente a alcatéia que nos rodeia. Um bando de pseudos-moralistas que aguardam o primeiro equívoco alheio para dispararem suas ‘verdades irrefutáveis’.

Me parece que, por natureza, temos o hábito de julgar. Julgamos tudo e todos. E disparamos julgamentos que na maioria das vezes não refletem nossa real opinião, mas o que os demais aceitarão. O receio da rejeição, por acoitar o que o senso comum julga errado, nos faz tomar posições vergonhosas onde atropelamos nosso próprio direito de expressão.

Das vezes que me prestei a acompanhar, através da imprensa em geral, o desenvolvimento do caso, em nenhum momento enxerguei imparcialidade no julgamento, mas uma grande tendência à execração e condenação dos envolvidos. Não estou aqui defendendo os réus, longe de mim. Devem pagar pelo que fizeram, sim, até porque são confessos. Mas uma análise minuciosa dos meandros do meio, da personalidade e da vida que eles viviam, talvez ajudasse a entender o porquê da tal brutalidade praticada, embora não a justificasse. Não se parou para analisar que eles podem ser apenas mais uns de milhares de jovens transtornados pelos outros milhares de problemas da vida moderna.

Temos observado o crescimento em proporções geométricas de crimes cometidos por jovens das classes sociais mais altas. Vivemos num país de terceiro mundo e com a eterna má distribuição de renda entre as camadas da sociedade. Vivemos também uma época em que as relações entre pais e filhos têm se superficializado em função da mudança de valores que veio com a globalização e invasão de novas culturas.

Os jovens da burguesia são produtos de uma educação onde a babá é mais presente que a mãe e o afeto se resume a um novo celular, um novo carro ou talvez uma viagem. Jovens que têm crescido sem uma estrutura familiar de valores nobres, mas com uma estrutura formada apenas para as fotos.

Lá embaixo, ao pé da pirâmide, encontramos a outra face da juventude, que sofre de problemas semelhantes, mas por motivos diferentes e ainda são objetos de preconceito. Em geral, esta face da juventude, além de não ter estrutura familiar, ainda é acometida pelo infortúnio da discriminação social e da falta de recursos.

E numa sociedade onde o incentivo ao consumo é ordem geral, jovens sem boa orientação psico-pedagógica são facilmente seduzidos e levados a cometer crimes para sustentar uma realidade por eles criada para que se sintam menos rejeitados pela sociedade.

A partir destes exemplos simplistas, não nos parece óbvio que o problema não está nos jovens? Não fica explícito que eles são frutos de uma sociedade mal organizada e de valores mesquinhos? Sociedade esta a qual fazemos parte. Logo, me parece claro que também somos parcialmente responsáveis por estes jovens.

Voltando ao caso, por envolver uma família de altos padrões financeiros e sociais, do relacionamento da ‘menina rica’ com um ‘marginal do subúrbio’ e do horrendo crime, a celeuma em torno do caso tipicamente ‘hollywoodiano’ não poderia ser menor. No entanto, nada justifica a voracidade com que os abutres atacam os pedaços que restam dos réus. Pura covardia!

Não acredito que este cenário mude. A Suzane e os irmãos Cravinhos são culpados e ponto final. E como a constituição nos permite liberdade de expressão, podemos saborear cada pedacinho deles, mas é claro, com a consciência tranqüila de quem nunca cometeu um erro e com a absoluta certeza de que nunca cometeríamos crime tão hediondo… afinal, somos perfeitos.

Tristemente,

André Santos

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