Dr. Jekyll e Mr. Hyde

O artigo de André Lara Rezende no caderno Aliás, do Estadão de hoje ( clique aqui) é curioso. Não tanto pelo conteúdo, mas pelo autor.

O que escreve André:

“Deveria saltar aos olhos que o cerne do desenvolvimento hoje, tanto para o mundo, como para os países individualmente, transferiu-se da questão do crescimento para a questão da eqüidade. O mundo como um todo é materialmente rico. A questão do nosso tempo não é mais como crescer, mas como melhorar a qualidade da vida para todos”.

“O custo de adequar-se às exigências legais e tributárias – o chamado custo de compliance – no Brasil hoje inviabiliza as empresas menores e inibe o aparecimento de novas empresas. Toda nova iniciativa empresarial só progride na fronteira da ilegalidade. As empresas que crescem, tornam-se visíveis, o que inviabiliza a operação à margem da legislação, e só tem duas alternativas: ou dá um salto de escala – na maior parte das vezes ao ser adquirida por um grande grupo – ou regride. A empresa média é inviável. A competição, profundamente inibida”.

“A modernidade, enquanto desvalorizadora da vida pública e da política, é sempre um fator de erosão progressiva da base cultural e institucional da qual ela não pode prescindir. No caso do Brasil, como dos demais países onde a tentativa de implantar a essa base cultural e institucional coincide no tempo com aspectos avançados da modernidade, a situação é particularmente perversa: o sucesso da modernidade no segmento mais avançado da sociedade desvaloriza a vida pública, a política e a cidadania, muito antes da incorporação dos setores excluídos” .

André foi responsável direto pela queima das grandes oportunidades de desenhar um país moderno e dinâmico. Foi um dos responsáveis por matar a idéia da privatização com fundos sociais, permitindo, ao mesmo tempo, resolver a questão da Previdência e legitimar a privatização. Foi o principal inspirador do desastre cambial de 1994, que o enriqueceu, mas gerou uma dívida que até hoje absorve até o último tostão de recursos públicos.

No dia em que se contar a verdadeira história do Plano Real, aparecerá como o economista que, individualmente, mais mal causou ao país. Justo ele, o ex-genro de Hélio Jaguaribe, o filho de Otto Lara Rezende, dois pilares da nacionalidade.

Aliás, tem sido uma característica de André e ex-sócios. Enquanto operam no mercado, pensam o que é melhor para o mercado. Quando saem do mercado, se dão ao luxo de pensar um pouco o Brasil. Quando voltam ao mercado, desistem e voltam a defender a inevitabilidade do modelo que criticavam.

Seus artigos deveriam ostentar notas de rodapé. Coisinha simples tipo: “atuando no mercado”, “provisoriamente fora do mercado”. Seria mais fácil para identificar qual artigo é do Dr. Jekyll, qual é o de Mr. Hyde.

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