Estão conseguindo

Estamos chegando lá. O Brasil já importou dos Estados Unidos várias teorias mal-assimiladas à realidade nacional. O Banco Central é pródigo nisso. Agora, com o sistema de cotas raciais, chegamos lá. A reportagem do Paulo Moreira Leite hoje no “Estadão” – “UnB vive situação inédita de caça ao racismo” (clique aqui, para assinantes)— é um alerta para esse processo trágico de introdução do racismo, ao identificar alguns casos (não sei se generalizados) de intolerância.

Alunos comparecem às aulas armados de gravadores para captar supostas afirmações racistas de professores. Um deles foi “acusado” de chamar os negros de “crioulada” – mesmo o aluno que o denunciou admitindo, no e-mail enviado para ele, que era seu jeito brincalhão. Há o aluno reprovado no curso de pós-graduação que invocou o suposto racismo do professor para conseguir ser admitido.

Já tinha ficado chocado meses atrás quando o Ministro Patrus Ananias me fez uma visita acompanhado de uma assessora, negra retinta, linda, linda, que me contou que havia sido rejeitada por um dos blocos afro do carnaval baiano, por não ter sido considerada suficientemente negra.

Tempos depois de escrever sobre o “racismo negro” participei de um debate aqui em São Paulo com grupos do movimento negro incrustados na Universidade. Levei o meu amigo negão Almeida, crioulo Almeida, do alto de seus 70 anos participante ativo do movimento negro dos anos 60 – foi o primeiro a enfrentar o preconceito do clube Esperia, em São Paulo, que não admitia negros na piscina.

Saímos os dois chocados com o que vimos. Não havia Brasil, boteco, Paulinho da Viola, Ivone Lara ou samba no evento. Havia negros de nariz empinado, mencionando fundações americanas, usando termos americanos, abusando do “ok”.

O encontro era para debater um livro de uma dessas lideranças jovens, da Bahia, um amontoado de preconceitos contra homossexuais (porque o movimento gay insinuara que Zumbi tinha modos suaves), contra portugueses, contra europeus em geral.

O autor se apresentava como mártir do movimento por ter sido detido em 1996 na USP, após um happening que, para seu orgulho, saíra no “New York Times”. Motivo da detenção: foi pego por um delegado pixando prédio público, levado para a delegacia, onde recebeu uma carraspana e foi liberado.

Essa rapaziada que está introduzindo o racismo no país são todos classe média, tão vazios e internacionalizados quanto a classe média branca internacionalizada. Seu sonho de consumo são os carrões extravagantes de negros ricos americanos. Negro pobre, para eles, é álibi, ao contrário de lideranças negras mais consequentes que militam em outros setores. Aproximam-se dos “brancos” empinando o nariz e estufando o peito, do mesmo modo que negrões americanos agressivos.

Consideram-se todos descendentes de príncipes africanos e tratam a miscigenação como “estupro”. Os mulatos são, todos, filhos do estupro. Ficaram um pouco chocados quando lhes disse que, na África daqueles tempos, chefes de tribo ganhavam a vida derrotando tribos rivais e vendendo os adversários como escravos. O maior traficante de escravos era negro.

No final do debate, no coquetel, um deles se aproximou, disse que só sendo negro para entender os problemas do negro. Rebati que só sendo pobre para entender os problemas dos pobres. Perguntei sua origem social. O pai tinha sido favelado, segundo ele. Disse-lhe que a pergunta era outra: qual a sua origem social, não a do seu pai. Quando nasceu, o pai já era funcionário público com emprego estável. E em que universidade estudou? Não tinha estudado no Brasil, porque só havia universidade vagabunda por aqui. E perguntou se eu conhecia o movimento negro em torno do Aristocrata Clube, nos anos 60.

Aí o negão Almeida estufou o peito e perguntou quem era seu pai. Disse o nome. Almeida deu-lhe uma aula sobre o clube, como integrante daquele movimento e companheiro do pai do moleque. E passou-lhe uma carraspana que, já de peito murcho, o rapaz aceitou de cabeça baixa.

Saímos de lá desanimados. Deixei o negão Almeida na sua casa, cheguei na minha e coloquei Candeias no computador, o grande Candeias, um dos primeiros líderes do movimento de afirmação negra dos anos 60, cantando: “Eu não sou americano / eu não sou africano / eu sou brasileiro”.

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