Gustavo e Rui

Gustavo Franco é um personagem eminentemente ideológico, em tudo o que fez de certo ou errado no Real. E, por ideológico, o mais interessante dos economistas do Real. Aprendeu com Rui a falar A, enquanto perseguia B; a utilizar o conhecimento especializado como arma política; a mover-se nas disputas internas do poder (arte que aprendeu com Rui e com seu pai, Guilherme Arinos, homem de confiança de Vargas). Com esses mestres, impôs-se sobre o conhecimento técnico e a vontade de dar certo que alimentavam Pérsio Arida. Em lugar de uma economia que passasse a funcionar e a se desenvolver, os atos de Gustavo eram movidos pelo objetivo de “refundar” o país, através de modelos de monetização que varressem do mapa o Brasil “velho” (no caso de Rui, os fazendeiros; no caso de Gustavo os industriais nacionais) para implantar o novo, que seria conduzido pelos novos financistas.

O capital financeiro é precioso em períodos de reciclagem da economia. Em geral é antenado com novos modelos de negócio, novos setores que estão se desenvolvendo em países centrais, e tem capacidade de mobilização de poupança para a reciclagem da economia. Mas, para ser produtivo, o ambiente de negócio precisa sê-lo.

A “destruição criativa” de Schumpeter (economista que identificou processos de mudanças tecnológicas que promoviam a destruição do velho para o crescimento do novo), depois que passou a linha do Equador, tornou-se a terra arrasada de Gustavo, em uma inversão extraordinária das relações de causalidade. No caso de Schumpeter, a destruição de empresas e setores seria decorrência da modernização da economia. No caso de Gustavo, a destruição de setores traria a modernização da economia. Nos dois casos, de Rui e Gustavo, trouxe desarrumação, estagnação, aumento da dívida pública e privada e dos tributos, esfrangalhamento das contas públicas.

Tanto Rui quanto Gustavo, por ideológicos, apostavam em um modelo que permitisse a montagem de uma nova hegemonia política, transferindo o poder para uma aliança economistas-políticos-financistas, na qual eles seriam os peões. 104 anos depois do desastre do “Encilhamento”, o fantasma de Rui economista continuou a espalhar estragos pelo país.

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