O acidente e os operadores

Passado o período eleitoral, é importante aprender as lições sobre análises precipitadas no calor do combate.

No dia 5 de outubro postei uma nota criticando as primeiras avaliações sobre o acidente com o Boeing da Gol.

Dizia assim:

“Essa história de que os pilotos do Legacy desligaram o equipamento para poder brincar com o avião, ou coisa que o valha, não faz muito sentido. Não eram jovens boyzinhos, mas pilotos experientes, tendo como passageiro um jornalista veterano do “New York Times”.

“Não sei qual será o resultado final das investigações. Mas alguma coisa não fecha nessa hipótese que começa a se consolidar entre as autoridades”.

“Não faz sentido a história de que a torre enviou cinco sinais de alerta para o Legacy e os pilotos não receberam por distração”.

“Contem outra!”

A provocação gerou muitos comentários xenófobos. Como do leitor Valmir:

“Tentando entender a sua defesa dos pilotos imagino que existem duas hipóteses para tal: 1º tem muito dinheiro nessa história; 2º é o velho complexo de colonizado do qual é muito difícil se livrar”.

Mas gerou comentários técnicos valiosíssimos (clique aqui).

Aí veio o leitor Sylvio Sanchez e apresenta uma análise técnica, mostrando pela primeira vez que os operadores poderiam ter cometido erro e revelando que existem pontos cegos no radar. O leitor Hubert Marceul mostrou vulnerabilidades do Sindacta, o sistema de radares que cobre a Amazônia.

Na sequência, um conhecido de uma lista de música me envia o relatório que circulou na aviação civil portuguesa, sobre problemas do transponder ( clique aqui), no mesmo dia em que um jornal brasileiro divulgava os dados.

Na sequência, um leitor de nome Jorge Piloto, que sei apenas que é piloto pelo nick, diz que “Sou piloto e tenho a convicção que houve falha de controle, pois nessa região quase não se fala, quase não se ouve. O acidente aconteceu em uma área de transição do Controle do Centro Amazônico com o Controle de Brasília, divisão de fronteiras do espaço aereo brasileiro interno. Acho absurdo falarmos em transponder desligado. Podemos exemplificar uma situação que as duas aeronaves não teriam transponder nenhum a bordo, mas nas telas dos controladores apareceriam dois ponto se convergindo e a regra é clara, desviar ambas para a direita, nunca subir e descer, só se não pudermos falar com as duas aeronaves”. E o leitor Luiz Cláudio chamou novamente a atenção para a demora do Centro de Manaus em tomar providências (clique aqui).

Na sequência, uma pessoa que se identificou apenas como controlador de tráfego aéreo do Sindacta. Lá contava que todos os operadores que trabalham no Centro de Controle de Brasília, já tinham preparado um relatório mostrando todos os problemas ali existentes (clique aqui).

Em seguida, o leitor João Batista do Nascimento matou a charada:

“1- Que história é essa de que viajar de São José dos Campos para Brasília a 37.000 pés é normal e desta para Manaus não. Como todo mundo esconde tal informação? Há nos EUA, onde os pilotos estavam acostumados tal tipo de incongruência? Quais outras rotas no Brasil são deste tipo. Que história é essa agora de entre Brasília e Manaus o jatinho tinha que sair de 37 para 38.000 pés. Não estavam sempre dizendo que o jatinho devia ir era mão única e a 36.000 pés?” ( clique aqui).

Finalmente, em 11 de outubro o leitor Edvaldo Santos deu um roteiro completo de como investigar o acidente com responsabilidade (clique aqui).

Apenas agora os jornalões estão chegando a essas conclusões.

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