O “apagão” aéreo

Do leitor André Araújo

A crise do controle de trafego aéreo tem os ingredientes de crise-símbolo, emblema de uma época de decadência da economia, do Governo e da infra-estrutura do País. Pontos centrais:

1. O Palácio do Planalto está com a crise nas mãos há mais de dois meses. Nada foi realmente feito para debelar o problema em curto prazo e para solucionar o problema estrutural.

2. É o tipo de crise que exige soluções drásticas. Houve falhas na cabeça do sistema. Se não havia verbas e se os salários dos controladores eram irreais o comando deveria confrontar o Governo, custasse o que fosse.

3. O Ministério da Defesa comprovou sua inutilidade. Não detectou a aproximação da crise, não conseguiu preveni-la, não sabe como administrá-la.

4. Uma situação de emergência nacional exige solução de guerra. Não se concebem soluções meramente burocráticas tipo vamos fazer um concurso para contratar 64 controladores, coisa que pode levar meses e anos, para admitir e treinar.

5. Uma solução macro seria pedir imediatamente emprestados 100 ou 200 controladores de outros paises, requisitar capacidade técnica de 200 oficiais da FAB, existe gente muito bem preparada em toda a Força e no ITA e fazer um concurso urgente para 1000 controladores novos. Ao mesmo tempo dobrar os salários ridículos dos atuais controladores, que são irrisórios, um oitavo da média americana e um décimo da européia. Afinal, os aumentos pretendidos no Judiciário e no Congresso representam gastos muito maiores do que isso por razões bem menos relevantes.

6. É inadmissível que a FAB não tenha mil controladores de reserva militar. No primeiro dia do Governo Reagan, , em 1981, os 14.600 controladores de tráfego aéreo dos EUA (hoje são 31,000) entraram em greve nacional. Reagan em 24 horas deu a solução. Mandou demitir todos, porque a greve era ilegal, mas tinha 6.500 controladores militares de reserva que supriram a emergência até se contratarem outros em qualquer lugar onde estivessem. A crise foi debelada por ação imediata, mas poderia ter destroçado o primeiro mandato de Reagan.

7. Até hoje, mais de dois meses após o inicio da crise, não há um responsável pelo problema, que está disperso e confuso entre várias cadeias de comando, ninguém se entende e o problema se agrava.

8. Sobre a ANAC: hoje é mais um complicador do problema, não havia razão para uma agencia independente na aviação civil, setor que tinha longa tradição de regulação pelo DAC, o Brasil tem muitas áreas para reorganizar e essa não era uma prioridade.

Nos EUA não existe uma ANAC, a FAA não é uma agência, é uma dependência direta do Departamento dos Transportes do EUA, desenho que é a regra mundial.

Para ainda piorar, o colegiado da ANAC e sua Presidência foram colocados em mãos pouco familiarizadas com o complicado setor aéreo civil, basta ver os currículos no site oficial, isso exatamente quando mais se precisa de expertise de primeiríssima em um setor onde o Brasil tinha fama de ser líder mundial, fama que obviamente perdemos de forma vexaminosa.

9. A crise é, portanto uma somatória de erros e exige ação de muito maior envergadura do que até agora foi providenciada. A não solução implicará em uma gravíssima perda de prestigio e de credibilidade interna e externa do Brasil e de seu Governo, alem dos evidentes prejuízos materiais e morais que a sociedade e a economia brasileira já estão sofrendo.

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