O “boom” do Piauí

Coluna de 18/08/2006

Os vizinhos pernambucanos, maiores e mais fornidos, têm por hábito tratar a soma do Piauí com Ceará como “pior serão”. Agora estão mordendo a língua. Quem conta é o Secretário do Planejamento de Pernambuco, Cláudio Marinho, uma das referências nacionais em política científico e tecnológico, durante o Seminário “Caminhos da Inovação”, promovido pelo Projeto Brasil e pela Agência Dinheiro Vivo.

A água jorra no Piauí e até os estrangeiros descobriram que a agricultura capitalista chegou ao nordeste. Depois da colonização do Paraná, da aventura do centro-oeste e do cerrado, a fronteira agrícola migrou pelas costas da Bahia, além do São Francisco e chegou ao sul do Piauí. Não há necessidade de água, de transposição do São Francisco. Recentemente, indianos compraram 100 mil hectares de um empresário cearense. Para efeito de comparação, todo estado de Pernambuco tem 42 mil hectares de terras irrigadas. Na região de Petrolina e Juazeiro, a fruticultura irrigada gerou propriedades com tamanho máximo de 150 hectares, responsável hoje em dia por 90% da produção de manga do país.

Agora, com a explosão do biodiesel, o “boom” da região já é uma realidade. Se não houver preconceito na convivência da pequena propriedade (que esmagará biodiesel) com o etanol, o país poderá aproveitar a oportunidade do século, diz Marinho.

Segundo Alosio Asti, do BNDES, só em Piauí já existem seis usinas de processamento de óleo em construção. Estudos do banco indicam que, em dez anos, o nordeste irá produzir 40% do álcool consumido no país.

Marinho foi um dos responsáveis por ter tornado Recife um pólo de tecnologia de alta qualidade, com o Porto Digital, um parque tecnológico em pleno centro velho da cidade.

Sua preocupação é pelo tamanho do desafio, e pela precariedade dos instrumentos institucionais existentes. “O tamanho da oportunidade é muito maior do que os instrumentos de que o Brasil dispõem para política industrial”, diz ele.

Em sua opinião, haveria a necessidade de uma reforma da política industrial e do Sistema Nacional de Inovação, incorporando o BNDES como principal motor dessa nova etapa.

Se quiserem abrigar o capital externo, os novos centros regionais terão que oferecer escolas em inglês e outros recursos internacionalizados. Em Eliseu Martins, no Piauí, têm executivos indianos e americanos sem escolas onde colocar os filhos. Em Luiz Eduardo Magalhães, no oeste da Bahia, tem duas escolas de inglês para filhos de executivos. No Porto Digital, em Recife, uma das condições para a atração de empresas estrangeiras é a existência de escolas em inglês para os filhos dos executivos.

Marinho considera que essa “territorialização” da política industrial resgata a política de desenvolvimento que foi seqüestrada pelos macro-economistas. O recurso mais escasso nessa nova fronteira não é o capital financeiro, mas o capital humano para gerenciar os empreendimentos, desde o executivo até o chão de fábrica.

Mas já não se tem dúvida, pelo nordeste que a dinâmica da nova economia da bio-energia já iniciou seu processo transformador na região.

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