O conflito Israel x Líbano

Do leitor André Araújo

Os melhores analistas da política no Oriente Médio estão em Londres. Os ingleses tem uma secular experiência com a área e não nos esqueçamos que Thomas Edward Lawrence, mais conhecido como Lawrence da Arabia era um especialista respeitado em assuntos arabes antes de ser agente inglês no Oriente Médio durante a 1ª Grande Guerra.

Os dois melhores jornais ingleses do ponto de vista qualitativo e de independência de opinião são o The Guardian, de Manchester e o The Independent, de Londres. As minuciosas análises de ambos, publicadas nestes ultimos dois dias dão um quadro abrangente da situação do conflito Israel-Libano.

1.O governo libanês representado pelo Primeiro-Ministro e seu gabinete era fortemente pró-ocidental. O Líbano estava em uma fase de prosperidade com uma previsão de 1,6 milhão de turistas este ano. O setor bancário, com 130 bancos estava em franca ascensão. Um dos bancos e não dos maiores, o BLOM, Banque Libaneise por l´Outre Mer tinha 10 bilhões de dólares de depósitos, o dobro do que tinha há 4 anos.

O ataque que parece que não vai acabar tão cedo, destruirá a economia libanesa. A elite cristã de Beirute, que governa o Líbano, discretamente pró-Israel (foi a milícia falangista cristã que cometeu os massacres de Sabra e Cahtila em 1982, com a cobertura do Exército de Sharon) está enfurecida com Israel. Ironicamente foi essa elite, da qual o ex-Premier Rafic Hariri era o maior expoente, quem conseguiu colocar o Exército sírio fora do Líbano. Foi um mau negócio. Se ele lá estivesse ainda hoje, dificilmente Israel teria atacado o Libano.

2. Os governos árabes pró-ocidentais (Jordânia, Egito, Arábia Saudita, Kuwait e paises do Golfo Pérsico) no geral condenam a ousadia do Hezbollah em seqüestrar os dois soldados de Israel. Mas a rua árabe, a massa, está totalmente a favor do Hezbollah, que julgam defender a dignidade do povo árabe. Esse sentimento que já existia, só aumentou com o conflito.

3. O ataque de Israel aumentou o fosso entre o Islã e os Estados Unidos, aumentou muito a tensão na região e encurrala os governos pro-ocidentais, cada vez mais temerosos da massa anti-ocidental.

4. A espantosa cegueira do Governo Bush é a pá de cal final para o agravamento da instabilidade regional, que fatalmente terá desdobramentos. O Governo Bush perdeu o ultimo fiapo de credibilidade para intermediar qualquer conflito regional, um capital politico precioso que Bill Clinton sempre soube manter.

5. Uma das chaves regionais é a Síria, com um Exército enorme (em números é maior do que o do Brasil), Força Aérea e blindados, tudo algo decadente pela secura da fonte de suprimentos bélicos, que era a antiga URSS. A liderança síria é bem moderna, o Chefe de Estado herdou do pai um capital político que se mantem, a primeira dama, Asma al Assad, londrina, antes de casar era chefe de divisão de fusões e aquisições do JP Morgan em Nova York, um casal antenado e cosmopolita e um pais respeitado como potencia regional. Não parece provável que Israel ataque a Síria mas a histeria israelense torna tudo possível, sem a contenção do freio americano. Se isso acontecer e parece que é o que Bush quer, o mercado de petróleo será sem dúvida afetado e o barril de cem dólares não mais será uma miragem. O Brasil deve se preparar para o pior.

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