O encontro dos dois gênios

Enviado por: Urariano Mota

Nasssif,

O escritor a quem Gabriel chama de “político alagoano comunista”, certamente como uma progressão de graus depreciativos, a saber, político+alagoano+comunista, trata-se de um clássico da língua portuguesa, um escritor que recebeu de outro gênio, o romancista José Lins do Rego, a saudação de “o maior de todos nós”. Isto, note-se, numa época de grande criação da literatura brasileira, onde apenas existiam Jorge Amado, o próprio José Lins, Raquel de Queirós, e outros menores, digamos.

O elogio a Guimarães Rosa não precisa ser feito à conta do desconhecimento sobre o homem e escritor Graciliano Ramos. Se o leitor pesquisasse um pouco mais sobre esse “alagoano”, veria que Memórias do Cárcere é um monumento de inteireza moral, uma prosa densa e clássica, talvez a melhor obra de Graciliano. De passagem o leitor conheceria um documento indispensável sobre as condições da repressão política na ditadura Vargas. E veria, ainda, os conflitos de um romancista com a linha política do Partido Comunista daqueles anos. Como ele não conhece, rascunha algo como “Graciliano ramos, que fez questão de escrever Memórias do Cárcere e fazer propaganda de sua prisão política”….

Enfim, uma pesquisa mais atenta veria que o Sagarana apresentado ao concurso de contos presidido por Graciliano não foi o mesmo livro publicado muitos anos depois. Deixo a seguir as palavras do mestre de todos os escritores brasileiros, em linhas jamais contestadas por Guimarães Rosa:

“Em fim de 1944, Ildefonso Falcão, aqui de passagem, apresentou-me J. Guimarães Rosa, secretário de embaixada, recém-chegado da Europa.

— O senhor figurou num júri que julgou um livro meu em 1938.

— Como era o seu pseudônimo?

— Viator.

— Ah! O senhor é o médico mineiro que andei procurando.

Ildefonso Falcão ignorava que Rosa fosse médico, mineiro e literato. Fiz camaradagem rápida com o secretário de embaixada.

— Sabe que votei contra o seu livro?

— Sei, respondeu-me sem nenhum ressentimento.

Achando-me diante de uma inteligência livre de mesquinhez, estendi-me sobre os defeitos que guardara na memória. Rosa concordou comigo. Havia suprimido os contos mais fracos. E emendara os restantes, vagaroso, alheio aos futuros leitores e à crítica. […]

Vejo agora, relendo Sagarana (Editora Universal — Rio — 1946), que o volume de quinhentas páginas emagreceu bastante e muita consistência ganhou em longa e paciente depuração. Eliminaram-se três histórias, capinaram-se diversas coisas nocivas. As partes boas se aperfeiçoaram: O Burrinho Pedrês, A Volta do Marido Pródigo, Duelo, Corpo Fechado, sobretudo Hora e Vez de Augusto Matraga, que me faz desejar ver Rosa dedicar-se ao romance”. (Graciliano Ramos, na crônica Conversa de Bastidores)

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