O exercício da tolerância

O jovem repórter da CartaMaior posta um comentário no Blog, se dirigindo quase ao companheiro Nassif, perguntando como “nós” poderemos conseguir a reestatização da Companhia Vale do Rio Doce. Não sou a favor da reestatização.

Recebo e-mails de militantes do PCdoB comentando entrevista que dei ao seu site, quase me tratando como “companheiro”. E, no entanto, devemos ter posições totalmente opostas sobre grande parte dos temas econômicos ou políticos.

No debate na CartaMaior, divido a mesa com Raimundo Pereira, Bernardo Kucinski e Flávio Carvalho. Nos tempos heróicos do Movimento, o máximo que fiz foi contribuir com algumas matérias, e comprar algumas ações dos projetos do Raimundo. Depois, idéias e conceitos foram nos afastando gradativamente. A amizade não, embora pouca cultivada. No auge das discussões sobre o novo modelo de país, aliás, ouvi a maior declaração que se pode receber de um amigo. Meu amigo José Roberto Alencar, o Zé Grandão, me disse uma vez: “Turco, gosto tanto de você, que continuei gostando mesmo você tendo se tornado um neoliberal”. Só quem conhece o Zé pode aquilatar melhor a relevância da sua declaração.

Raimundo é a favor do governo ajudar na constituição de uma imprensas popular, que ajudaria a combater a burguesia, a “imprensa burguesa” e o imperialismo norte-americano.

Eu sou a favor de um projeto nacional que integre grandes e pequenas empresas, investidores e trabalhadores, em um todo harmônico, cada qual com seu papel, suas discordâncias, mas objetivos comuns, que só podem ser somados quando o conceito de nação se fortalece. Que nem fazem chineses e indianos, americanos e ingleses. E nem vejo os Estados Unidos como um bloco monolítico. Acho que tem muita coisa boa lá, para ser admirada e imitada; e que nas negociações com eles, têm que se ser muito firme, ter muita clareza sobre os interesses nacionais, mas sem demonizá-los. No campo jornalístico, defendo o uso de ferramentas de mercado para melhorar a competição.

Não importam as divergências, importam as regras de convivência, o respeito, o pacto em torno dos princípios da democracia, da diversidade de idéias, da capacidade dos diversos centros de pensamento e de ideologia em pensar conjuntamente o futuro, ainda que divergindo nas idéias.

Não tenho ilusões de que mudando os ventos, algumas vítimas hoje se tornarão algozes amanhã, e vice-versa. No segundo semestre de 2002, alguns dos que me tratam como companheiro hoje, patrulharam bonito. Um amigo antigo, que participava da parte de informação da campanha do Lula, mandou uma carta para a “Folha” me comparando a uma colega jornalista econômica; e um e-mail para mim, me convidando para um chopp.

Faz parte do jogo. E faz parte da construção democrática investir permanentemente contra toda forma de intolerância, mesmo que a vítima hoje tenha sido o intolerante de ontem, e possa voltar a ser amanhã.

A democracia é um exercício cotidiano de tolerância, difícil mas no qual vale a pena apostar.

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