O hacker Delgatti investe contra o delegado que o salvou, por Luis Nassif

Na entrevista histórica do hacker Walter Delgatti a Joaquim de Carvalho, na TV 247, algumas afirmações não se sustentam.

Delgatti e seu advogado querem, de todo modo, implicar o ex-Ministro Sérgio Moro mostrando seu envolvimento direto com a operação. Não terão dificuldades. Quem comandava a Polícia Federal eram homens de Moro e os sinais de sua interferência ficaram nítidos nos primeiros dias. 

De um lado, no vazamento de informações tentando criar a narrativa de que o dossiê havia sido vendido a Glenn Greenwald – condição essencial para a criminalização da operação e concretização das represálias contra o jornalista. No mesmo período, jornalistas da Abraji deixaram se instrumentalizar por denúncias vazadas pela Lava Jato do Rio de Janeiro, tentando incriminar David Miranda, companheiro de Glenn, com as rachadinhas.

Em outra frente, Moro procurou  políticos e autoridades, supostamente mencionadas nas conversas, para garantir apoio e sigilo das informações. Foi tão inusitado seu comportamento que não se sabia se queria mostrar serviço ou ameaçar.

Na ânsia de chegar a Moro, porém, Delgatti não está tendo escrúpulos em sacrificar a pessoa que, com seu profissionalismo, o livrou dessas armações. Trata-se do delegado Luiz Zampronha, titular da operação Spoofing. Delgatti insinua que ele o interrogava conversando com alguém ao telefone. E seria o próprio Moro. Indagado sobre os contatos com Moro durante o inquérito, segundo Delgatti, Zampronha teria respondido que “não se lembrava”.

Não bate. 

No primeiro depoimento de Delgatti, Zampronha registrou sua afirmação de que não recebeu nada pelas bases de dado nem adulterou suas mensagens. Matou no nascedouro as tentativas de delegados moristas de criar uma narrativa incriminadora do próprio Delgatti. Fiquei tão surpreso com o profissionalismo de Zampronha que fui me informar com fontes confiáveis da PF sobre ele. E as informações deram conta de um delegado absolutamente profissional e justo.

É inverossímil que o delegado que desmontou as armações de Moro mantivesse contato com o ex-Ministro enquanto interrogava Delgatti. A tal afirmação, de que “não se lembrava” se conversou com Moro não consta do depoimento de Zampronha no processo.

Tem mais. Delgatti afirma que recusou um acordo de delação, no qual teria sido induzido a incriminar Glenn ou alguém do PT, “para não ser igual a eles”.

Não foi bem assim. Fontes que acompanharam o inquérito dizem o contrário. Logo de cara, assustado com a prisão, ele se ofereceu para o acordo de delação. Zampronha se negou a dar continuidade à conversa porque Delgatti pretendia incriminar pessoas sem qualquer elemento de prova.

Além disso, coube a Zampronha solicitar a libertação das demais pessoas detidas, Suelen e Danilo. A pretensão foi rechaçada pelo procurador do inacreditável Ministério Público Federal do Distrito Federal, um órgão inquisitorial plantado em pleno coração da República.

É natural que, a esta altura do campeonato, Delgatti tente se transformar em herói e esquecer seus momentos de fraqueza. Bobagem! Seria absolutamente normal que o aparato policial intimidasse um jovem estudante de Direito, em uma cidade do interior, depois de ter hackeado as maiores autoridades do país. Mas seria conveniente que Delgatti não manchasse sua biografia colocando no mesmo balaio os manipuladores da Lava Jato e delegados profissionais.

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