O jogo da convergência digital

Coluna 30/08/2006

Um dos temas mais instigantes dos próximos anos, especialmente no Brasil, será o papel das novas mídias de opinião, concorrendo com a mídia tradicional. Nos anos 90, em que pesem inúmeros exageros cometidos com a espetacularização da notícia, a mídia brasileira tentava cultivar alguma forma de pluralismo. O desafio era atingir o mais largo espectro de leitores. Havia o esquerdista e o direitista de plantão, e uma cobertura supra-ideológica, cujo maior objetivo era conseguir repetir o feito da derrubada de um segundo presidente. Fernando Henrique Cardoso foi alvo dessas tentativas. Mas, a não ser na cobertura financeira e seu falso viés técnico, não havia um componente ideológico, apenas compromisso com o show. Calhava da esquerda petista e seus procuradores fornecerem o roteiro para o show.

Esse modelo prosseguiu com o atual governo, a partir do episódio Waldomiro Diniz. Mas a campanha contra Lula foi um divisor de águas por várias razões. A maior de todas é não ter conseguido nem derrubar nem afetar a popularidade do presidente fora do campo da opinião média midiática. É o fim de um ciclo de prestígio da mídia tradicional, que começou com a campanha das diretas e atingiu seu auge com a queda de Collor.

Havia denúncias graves a serem apuradas, é fato, mas a mídia cedeu a uma radicalização cada vez maior. O movimento do pêndulo saiu da diversidade anterior para uma gradativa homogeneização da análise, se deslocando para a direita. Mais que isso, assumindo um profundo corte ideológico que, não raras vezes, enveredou pelo preconceito social -em que pese, repito, a gravidade evidente de muitas das denúncias—com um viés de intolerância em alguns veículos impossível de se sustentar ao longo do tempo: cansa o leitor, esgota.

À medida que a campanha contra Lula avançava –e ele resistia–, criou-se um jogo de braço com perdas para todos os lados. Perdeu o governo Lula, pela resistência radical que passou a provocar na opinião média midiática; perdeu mais ainda a mídia em geral, por ter comprometido a diversidade de pensamento e a objetividade das apurações e análises. A homogeneização do pensamento acabou deixando ao relento fatias importantes do público, do leitor intelectualmente mais exigente àquele cujas preferências políticas deixaram de ser contempladas pelo conjunto da mídia.

Todo esse quadro se formou no momento em que a proliferação de blogs, na Internet, criou novos espaços de opinião. Antes, tinha-se o jornal dando a visibilidade a seus colunistas, emprestando parte de seu prestígio e recebendo, de volta, a agregação de mais leitores e prestígio. Com os blogs, o aval não é mais do jornal, mas é individual, do blogueiro.

Os blogs são apenas a parte mais visível de um processo de criação de novos centros de opinião, como grupos de discussão, fóruns, ONGs. E novos atores de peso entrando no jogo, como as empresas de telefonia e os portais.

Nos próximos anos, a mídia brasileira passará pelas maiores transformações da sua história. Os jornais que entenderem o processo continuarão no jogo.

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