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O negro de Santa Rita

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Era começo de 1965. Recém formado no ginásio, com 14 anos prestei vestibular na Escola Técnica de Eletrônica Sinhá Moreira, em Santa Rita do Sapucaí. Era o sonho de todo moleque sair formado com 17 anos, pronto para ser empregado na indústria eletroeletrônica, que experimentava grande desenvolvimento na época.

Passei no vestibular e meu pai me levou a primeira vez até a cidade para me colocar em uma pensão que um amigo dele de Poços tinha montado, com sua cozinheira, para que tomar conta do filho e de colegas.

Em pouco tempo enturmei, mudei para o Seminário, um antigo seminário transformado em pensão por um fazendeiro que tinha três filhas lindas. Logo em seguida, conheci a turma mais “barra pesada” do Instituto e aceitei me mudar para sua república, a WC.

Tinha o José Saia, de Itajubá, que ostentava marcas de navalhada no braço que dizia terem sido fincadas por Mineirinho. Tinha o Salário Mínimo, pequeno, frágil, de São José dos Campos, que me acordava toda manhã tocando “Subindo aos Céus” ao violão. Tinha o Ênio, de Itajubá também, e o Marcão, de Ouro Preto. O Marcão era negro, alto, bonito, cantor de bossa nova de primeiríssima, crooner do conjunto do Instituto.

Todos eram mais velhos do que eu e cursavam segundo e terceiro ano. Por isso mesmo o episódio que ocorreu na cidade eu soube por eles, não tive a ventura de testemunhar porque ocorreu no final do ano anterior à minha chegada.

O Clube local programou uma festa. A escola tinha quase tantos alunos quanto a cidade tinha jovens. E eles foram em peso para a festa. Quando chegaram, Marcão foi barrado, devido à cor. Quem tinha entrado, voltou; quem não tinha entrado, esperou. E, de mãos dadas, cercaram o clube e cantaram o Hino Nacional.

Saí de Santa Rita no meio do ano, por absoluta incapacidade de avançar além das soldas. Mas jamais me esqueci daquela cena que não testemunhei.

Até me dá arrepios se o racismo negro tivesse invadido o campus convivendo com o racismo branco.

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