O vaidoso e o inteligente

Depois da má repercussão da sua carta ao PSDB, Fernando Henrique Cardoso começa uma turnê de entrevistas para sair da defensiva. Hoje tem duas muito boas, uma para a “Folha”, para o belo jornalista Sérgio D’Ávila, e uma outra entrevista ao surpreendente repórter Júlio Maria, “Jornal da Tarde”, reproduzida hoje no “Estadão” (clique aqui), de uma qualidade que há muito não via em entrevistas.

O grande problema é que o intelectual FHC, que nos anos 80 conquistou o PSDB para suas idéias, terá um grande embate se quiser reconstruir o partido: matar a herança do ex-presidente FHC.

Quando assumiu o governo, FHC tinha massa crítica de conceitos e diagnósticos sobre a economia. Tinha a legitimidade para empalmar bandeiras de modernização, até para avançar sobre a previdência social. O PSDB tinha quadros para aprimorar várias áreas, na reforma administrativa, na modernização da gestão, na visão de um Estado enxuto e pró-ativo.

Grande parte dessas bandeiras foi jogada fora, por conta de um movimento puramente ideológico de abertura da conta capital, de construção de um país internacionalizado, oligopolizado, totalmente descomprometido com o país real e de uma gestão totalmente passiva de políticas públicas. FHC desdenhou os valores da gestão, desdenhou o povo, desdenhou conceitos primários de planejamento estratégico, abortou a reforma administrativa.

O modelo implantado por ele permitiu a internacionalização do capital nacional, mas não o canalizou para investimentos. Multiplicou o grande capital nacional, mas o colocou a salvo da Receita, protegido pelo Banco Central , pelo CADE -caso Ambev, por exemplo. Foi um modelo que permitiu o crescimento apenas dos setores oligopolizados e dos grandes grupos que se formaram na informalidade, ao preço de matar um projeto de país.

O presidente voltou as costas para o país, tratou com desdém as idéias contrárias, contribuindo para a criação desse clima surreal, em que suas idéias são tratadas pela mídia como clichês da revista “Caras”. FHC é “in”; seus críticos são “out”.

Em dezembro de 1994, escrevi que havia dois FHCs, o vaidoso e o inteligente, mas temia que o vaidoso vencesse. Na época, ele respondeu que o inteligente era suficientemente inteligente para permitir a vitória do vaidoso. Ali, já estava claro que o vaidoso seria vencedor.

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