Os gaúchos e o PT

Coluna Econômica – 22/9/2006
De fora, o que se observa no PT são os seguintes movimentos:

O núcleo gaúcho do PT pouco a pouco vai assumindo a dianteira na construção de uma nova hegemonia partidária. Ainda não têm liderança nacional suficiente para preencher o enorme vácuo deixado pelo esfacelamento do antigo centro dirigente paulista. Mas dentro do governo seu poder cresceu ainda mais nas últimas horas.

Em um eventual segundo mandato, pode estender essa influência às instâncias regionais do partido superando resistências, remanejando estruturas e corrigindo acefalias. De certa forma é uma ironia da História que essa travessia termine nas mãos daquele núcleo mais claramente posicionado à esquerda do pragmatismo paulista.

Ao contrário do que imaginavam os chamados “realistas” do PT, apenas o pragmatismo foi insuficiente para assegurar a convivência entre a estrutura partidária e o exercício do poder em escala federal.

Usina da mais rigorosa –e ainda incompleta– crítica petista às experiências fracassadas do socialismo no mundo, o núcleo gaúcho acumula, além do nível teórico diferenciado, um histórico de prática administrativa inovadora.

Em que pese derrotas eleitorais de 2002 e 2004, e as inevitáveis disputas internas, talvez seja aquele que conseguiu se manter mais íntegro, do ponto de vista estrutural e ideológico nessa transição complexa do partido de militância para o partido no poder.

Além do ex-ministro e candidato outra vez ao governo, Olívio Dutra -uma das legendas do PT–, tem entre seus quadros mais notórios o atual coordenador político de Lula, Tarso Genro. Socialista, Tarso é também um homem de reflexão, debruçado sobre o grande desafio dos socialistas que é administrar o capitalismo e conviver com o mercado, sem abdicar de princípios nem de valores humanistas. E também Raul Pont, ex-prefeito de Porto Alegre. Os gaúchos conseguiram mergulhar no poder durante muitos anos, sem saírem enlameados.

Ao lado desse pendor de natureza mais reflexiva, mas que não ignora a realpolitik, o PT gaúcho trouxe para o Planalto talvez a principal revelação administrativa da esquerda brasileira no exercício do poder depois da redemocratização: Dilma Roussef. Hoje ela é considerada por Lula e todo o núcleo central do Planalto como uma espécie dínamo de eficiência na coordenação administrativa e no planejamento de governo.

Do encontro entre o núcleo gaúcho e o pragmatismo de coloração mineira do PT liderado pelo prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel, pode nascer alguma ramo verde na chamuscada paisagem da política brasileira.

Mas são apenas ensaios de uma reorganização partidária. Essa tentativa de reconstrução se dará em um segundo governo Lula (caso as pesquisas se confirmem) conturbado, trabalhando em baixo de tiroteio cerrado durante todo o tempo, tanto da parte dos adversários quanto dos aliados.

Afora as dificuldades internas do partido, dificilmente haverá aliados, fora do PMDB, disposto a aceitar o lenço branco.

Vai ser um primeiro semestre emocionante.

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Leitores chamam a atenção para o fato de que, se na prefeitura de Porto Alegre o PT conseguiu avanços, no governo do estado cometeu inúmeros desastres de cunho puramente ideológico, como impedir o acordo com a Ford (que se foi para a Bahia). Aí me lembrei também que impediu os programas de qualidade, não conseguiu acertar a pesada herança de endividamento deixada por Antonio Britto, tratou saneamento com preconceito ideológico. Nada como a interação do Blog para ampliar o escopo da análise.

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