Os interpretes – 3

Enviado por: Humberto

Nassif, aproveito o espaço para sugerir a leitura de mais um intérprete do Brasil, André Rebouças. Ele foi empresário e jornalista. Geralmente seu nome vem confundido com o de Joaquim Nabuco por terem sido grandes abolicionistas. Diria que Nabuco foi de fato o grande abolicionista, mas Rebouças avançou para além do movimento abolicionista em si, propôs um programa de incentivo e fortalecimento da Agricultura Nacional. A visão reformista de Rebouças é singular; foi seu grande momento. Longe de ser um defensor da aptidão agrícola do país, um discurso essencialmente conservador, ele propunha a integração da agricultura à indústria com idéias pioneiras, claras e modernas, inclusive em relação ao meio ambiente. A necessidade de desenvolver a agricultura nacional para ele era fundamental requisito para a modernização econômica do Brasil. O seu conceito de “democracia rural brasileira” abalou as estruturas de poder das oligarquias rurais na época. Ele propunha de fato inserir todo a massa de ex-excravos nesse esforço nacional e uma transformação de toda uma ordem oligarca numa sociedade de capitalistas rica de empreendedores organizados e trabalhadores livres. Rebouças foi esquecido. O advento da república fortaleceu os coronéis e não os reformadores sociais. Um paradoxo brasileiro. Especialmente para aqueles que ingenuamente repetem slogans republicanos acreditando que, assim fazendo, vão garantir sua aplicabilidade imediata meio que por encantamento, Rebouças é uma leitura obrigatória até para entender o que não aconteceu de lá para cá e porque ainda hoje vivemos discutindo os mesmos temas da mesma forma.

Nabuco assim definiu Rebouças: “Matemático e astrônomo, botânico e geólogo, industrial e moralista, higienista e filantropo, poeta e filósofo, Rebouças foi talvez dos homens nascidos no Brasil o único universal pelo espírito e pelo coração… Pelo espírito teremos tido alguns, pelo coração outros; mas somente ele foi capaz de refletir em si e ao mesmo tempo a universalidade dos conhecimentos e a dos sentimentos humanos. Quem sabe se não foi a imagem que partiu o espelho!”

Os escritos de Rebouças estão reunidos em livro lançado pela editora Massangana da Fundação Joaquim Nabuco. Essa leitura nos fará entender que a manutenção do nosso atraso, especicialmente no mundo rural, nunca dependeu da falta de pensadores, habilidades e capacidades nacionais como a todo tempo o Banco Mundial quer nos fazer crer. Quem ler Rebouças vai ficar, no mínimo, surpreso. Mas atenção: não o leiam como um abolicionista apenas. Sejam generosos na leitura.

Abraço

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