Os intérpretes do Brasil

Meu intérprete favorito é Manuel Bonfim, o médico sergipano que chegou ao Rio, escreveu um clássico sobre o Brasil logo após a Proclamação da República (“América Latina, Males de Origem”), criou o Almanaque Tico-Tico, inovou o ensino em parceria com Olavo Bilac e morreu em 1930 desencantado com o país.

Descobri Bomfim no relançamento de seu livro pela Topbooks, do meu amigo Zé Mário. Ler Bomfim foi um choque porque conseguia identificar, no início do século, personagens que estavam presentes naquele final dos anos 80, de redemocratização, do político contemporizador ao “financista” (o equivalente aos nossos economistas pacoteiros). Conseguia desenhar um modelo de país que era superior a tudo o que se discutia naqueles fervilhantes anos 90, em que acreditávamos que desta vez o país daria certo.

Fiquei um propagandista tão entusiasmado de sua obra, que tive a honra de escrever o prefácio do relançamento seguinte dele.

Depois, conversando com Antonio Cândido, ele me contou que no final dos anos 60 andou divulgando o pensamento de Bomfim. E que, criança ainda, seu pai recomendava ler um autor que “pensa diferente de tudo o que existe por aí”, justamente Bomtim.

Fundamentais, para minha formação, foram José Bonifácio, Joaquim Nabuco. Depois, a geração dos 30, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque e Caio Prado Júnior. Alguns conservadores ilustres, como Oliveira Vianna, ajudaram também na compreensão do país.

Mais à frente, Celso Furtado, Raymundo Faoro, Victor Nunes Leal, Antonio Cândido, Hélio Jaguaribe. Aliás, na brasiliana lançada pelo Ministério da Cultura no final de gestão de Francisco Weffort, ficaram de fora Furtado, Faoro e Nunes Leal devido à exigência da família de Gilberto Freire, que só autorizava a publicação de “Casa Grande e Senzala” se entrassem também “Sobrados e Mucambos” e “Ordem e Progresso”.

Fiquei muito impressionado com um livro do Simon Schwarztman, do início dos anos 70, analisando a formação regionalista brasileira, assim como vários livros de José Murilo de Carvalho, especialmente um sobre os símbolos nacionais, assim como Roberto da Matta e Gilberto de Mello Kujawski.

Tem muitos mais, mas quem quiser que conte outra.

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