Os locutores de rádio

Nesses tempos de Copa do Mundo, estava ouvindo um CD de Morengueira da Silva, e em um dos sambas de breque ele menciona Oduvaldo Cozzi. Não sei se você se lembra dele. Eu nunca o ouvi, mas era uma lenda no futebol de rádio na minha infância. E aí me dei conta de que, naqueles tempos de rádio rabo quente, sem acesso à televisão -pelo menos lá no interior—os radiolocutores de futebol eram semi-deuses para nós.

Quando entrei na idade da razão, lá pelos 6 ou 7 anos de idade, as rádios do Rio de Janeiro ainda pontificavam em todo o Brasil, especialmente a rádio Nacional e a Globo. A gente acha que o Sistema Globo começou com a televisão ou com o jornal, mas naqueles tempos o grande veículo do grupo era a rádio Globo.

Em toda emissora havia a dobradinha comentarista-analistas. Os mais famosos, naquele meu início de aprendizado, eram os da rádio Nacional, Jorge Cury (irmão de Ivon Cury) e, acho, Oswaldo Cordeiro. Eram famosos por conta da rádio Nacional, mesmo, porque sua lembrança se perdeu no tempo.

Sobreviveu muito mais forte a de Ary Barroso e sua “gaitinha”, que nem sei em qual emissora se apresentava.

O grande locutor da história do rádio talvez tenha sido Pedro Luiz, que narrou um dos tempos do jogo Brasil e Suécia na final da Copa de 1958. O outro tempo foi narrado por Edson Leite. Foi uma dupla de fazer história. Pedro Luiz tinha uma capacidade de descrever detalhes que só vi, anos depois, em José Silvério, da Jovem Pan. Os especialistas dizem que Pedro Luiz foi o maior da história.

Mais tarde, fez dupla memorável com o comentarista Mário Moraes, um ranzinza autor de imagens clássicas, como o famoso “aquele jogador só usa a perna esquerda para subir no ônibus”. Mário Moraes se deu bem com a televisão, Pedro Luiz, menos. Como já tinha o suporte da imagem, a televisão precisava de mais show e menos detalhes. Por isso mesmo, o primeiro grande nome exclusivamente de televisão foi Geraldo José de Almeida, o pai do modo Galvão Bueno de ser, com seu estilo retumbante, fundamental na consolidação da TV Globo naquele início dos anos 70.

No rádio, o grande nome que surge nos anos 60, para nós lá do interior, foi o de João Saldanha, um ídolo imbatível, tanto no rádio quanto, mais tarde, na televisão. Ainda mais depois que deu a garra à seleção que conquistou a Copa de 70. Como técnico das eliminatórias criou a imagem das “feras de Saldanha” e acabou com o início de complexo de inferioridade ao qual estávamos sendo jogados depois do desastre da Copa de 1966.

Conheci o mestre em meados dos anos 70, quando o Juca Kfoury convocou um grupo de jornalistas, a maioria do antigo partidão, e uns independentes, como eu, para auxiliar o prefeito de Piracicaba, João Hermann, que estava sendo massacrado pela “burguesia” da região. Além do Saldanha, na reunião estavam ainda o Henfil e o frei Betto, se não me engano. Quando foi solicitado que o Hermann descrevesse o teor da campanha insidiosa que lhe moviam, sacou um jornal com a manchete bombástica: “Prefeito morde a omoplata da secretária em festa de reveillon”. “Aconteceu?, indagou Saldanha. E o acusado, cabisbaixo, “aconteceu”. O grupo achou que era caso perdido.

A carreira de Saldanha encerrou-se quando comentou o jogo Brasil e Holanda, na Copa de 1974. De tão nervoso com a qualidade do adversário, Saldanha comentou o jogo de pileque. Há quem diga que estava sob efeito de remédios Está desculpado. Ninguém agüentaria aquela tensão de cara limpa.

O rádio permaneceria dividido entre os locutores narradores e os locutores show. No segundo grupo, Fiori Gigliotti foi um nome portentoso. Participei de um programa com ele há um mês, uma semana antes de sua morte.

Mas o grande nome de locutor-show mesmo foi Osmar Santos. Suas transmissões ainda hoje ecoam nos ouvidos de todos aqueles que tiveram o prazer de viver os últimos momentos de predomínio dos locutores de futebol no rádio.

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