Queimando as pontes

A caminhada do PT rumo ao poder teve uma trajetória tortuosa, em que a parte mais visível era uma militância aguerrida, e a parte mais sombria esquemas complicados, montados no âmbito das prefeituras petistas e do sindicalismo.

Nessa atividade, se desenvolveram os operadores do partido, atuando com desenvoltura depois que José Dirceu assumiu a liderança e impôs seu pragmatismo e seu estilo leninista.

O estilo foi eficiente durante certo tempo, permitindo ao PT assumir o poder e assegurando a governabilidade naquele início de mandato, quando o mercado temia que se pudesse cometer loucuras na condução da política econômica.

Depois, virou veneno puro. Especialmente depois que o PT não avaliou corretamente os dois erros capitais que levaram à degola de Collor.

O primeiro, o de tentar centralizar as ações de todos os operadores da máquina pública. O segundo, de não montar nenhuma espécie de monitoramento sobre os seus quadros.

Os operadores vicejam no Estado brasileiro e servem a todos os partidos e governos. São “empreendedores” que descobriram maneiras de tirar dinheiro do Estado, seja através de liberação de recursos do orçamento, seja através dos departamentos de compras de grandes estatais. Atuam preferencialmente na Saúde, Infraero, na área de compras de grandes estatais, como os Correios e o setor elétrico.

Nas alianças políticas, o bolo é dividido de duas formas: na parte de cima, Ministérios e Secretarias; na parte de baixo, os operadores. Esse modelo vigora em praticamente todos os governos, de Sarney a Lula, tendo tido grande avanço no período PC Farias, que montou os grandes esquemas na Saúde. No governo FHC, por exemplo, os eletrocratas eram cargos do PFL. Os esquemas na Saúde vigoram desde PC Farias, pelo menos.

A estratégia desastrosa do PT, e a de Collor, foi a de tentar centralizar todos os esquemas. Depois, montar alianças turbinando os pequenos partidos para que sangrassem os maiores com “mensalões” ou ajuda para campanha.

Além disso, ambos permitiram a ocupação da máquina pública por militantes ou aliados sem impor nenhuma regra de conduta. Qualquer partido mais experiente teria enquadrado, antecipadamente, os militantes e, na primeira oportunidade degolado meia dúzia para servir de exemplo.

Depois que foi derrubado, Collor disse, em algumas entevistas, que um de seus grandes erros foi ter desmontado o SNI e não dispor de serviços de inteligência para monitorar as ações de aliados dentro do governo -àquela altura, a prepotência do poder fazia PC andar com desenvoltura por todos os cantos. O mesmo ocorreu com o governo Lula, que ainda cometeu a suprema imprudência de permitir que Delúbio Soares fosse visto no Palácio, dando entrevistas dizendo que o partido era sócio do poder. Era como tivesse dado ordem para matar a todos os operadores que entraram na máquina pública.

Ali estava o germe de todas as crises futuras. Quando estourou o escândalo Waldomiro, trincou a armadura que protege todo governante em início de mandato. Seguiu-se uma campanha similar ao do impeachment, onde a falta de informações do governo sobre seus próprios quadros foi fatal.

A primeira onda de escândalos deu a Lula a chance de se livrar dos barras-pesadas e recompor a governabilidade. Com a segunda onda de escândalos, todo o trabalho de construir pontes para a governabilidade foi por água abaixo.

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