Salvador em guerra

Enviado por Humberto Miranda do Nascimento

Nassif,

desde que o Carnaval começou em Salvador, na última quinta-feira, que os jornais A Tarde e Folha de S. Paulo, e outros, noticiam os arrastões em ônibus urbanos de Salvador, sempre nas madrugadas. São grupos grandes, entre 20 e 30 pessoas armadas de facões, facas, canivetes, paus etc. Se teve arma de fogo ou não, não sei dizer e não importa. O arrastão é um fenômeno típico das grandes capitais com graves problemas sociais. Salvador então é um exemplo dos mais perversos. Aqui a fantasia da violência urbana veste literalmente uma mortalha enfeitada de denominações “carinhosas”: a “Bahia terra da alegria”, “Salvador negro amor”, “o sorriso do baiano”.

Tá. É verdade que tudo isso que é lindo existe, mas há um discurso por traz da lindeza com o qual se esconde há anos as reais mazelas da capital baiana. Existem bairros inteiros entregues ao abandono, o perigo de desabamento nas ruínas do centro histórico só aumenta, não existe um transporte público minimamente racional, há um absurda e desoladora deseducação no trânsito e tem ficado pior com o aumento da venda de veículos nos últimos anos. Aqui teremos um metrô sem resolver as crateras da desigualdade social. Será mais um trem propício a arrastões.

Há razões históricas e sociais já batidas e debatias que explicam tudo isso, mas é preciso chamar a atenção também para o tipo de crescimento econômico do Nordeste nos últimos 20 anos, que se concentrou em três grandes centros urbanos: Salvador, Recife e Fortaleza. Curiosamente, o grau de desigualdade, em níveis alarmantes, acompanha a importância econômica regional de cada um dos Estados, respectivamente, Bahia, Pernambuco e Ceará. Quando chega o carnaval, a coisa transborda. Justamente quando ninguém quer mostra o feio, só quer mostrar a alegria. Aí vem o discurso de tudo aquilo “o que é que a baiana tem?”

O interior desses três estados é um vazio econômico. Se tomarmos a Bahia, vamos ver quem domina a região oeste é a soja, em Juazeiro há a fruticultura irrigada, no Sul só há ruínas das fazendas de cacau, o resto é turismo, seja na região da chapada (Lençóis) ou em toda a costa com suas “linhas verdes”, azuis etc. O interior não tem qualquer importância econômica e cultural e quando tem é um enclave. O interior é um outro estado. Feira de Santana faz uma Micareta em abril para silenciar de alegria sua regressão social e econômica. Como o mercado nos salva a imagem, não? Viva o mercado da foliaI E onde vão os capitais, vão seus proprietários ou seus empreendedores bem pagos, que não são baianos de nascença, como se diz aqui. Quem ganha dinheiro, adora a Bahia. Adora a nossa alegria alegórica.

Abram alas! Os arrastões em Salvador não são uma eventualidade da época de Momo, que está com a chave da cidade. E a chave está perdida faz tempo. A porta está arrombada há muito. Desde os primeiros projetos de urbanização de Salvador na gestão do prefeito biônico ACM nos anos de 1970. O tipo de modernização conservadora trouxe obras urbanas que ilharam a pequena e perversa elite local. Durante muito tempo essa elite se viu obrigada a formar uma clientela de pobres e miseráveis, concentrando-as em hospitais e demais instituições beneficentes. Salvador é uma Sociedade Beneficente Ltda. Até os terreiros obedecem a uma lógica de compadrio secular para se manterem vivos, com raras e importantes exceções. São estratégias de sobrevivência que não sobrevivem mais ao caos urbano.

Acontece que a turba é tão grande em Salvador que não há uma preocupação genuína as pessoas, sem com seu movimento à beira do precipício saocial. E os governantes demoram a incorporar programas importantes que já foram implantados em outras capitais ou aqui mesmo no Nordeste, ainda que com grau limitado de sucesso porque não se visa o interior dos estados, só as capitais. Ninguém usa indicadores de migrações internas como instrumento de planejamento. A divisão capital e interior é apenas uma disposição de divisórias, biombos territoriais. No fundo, não se quer falar de integração interregional, pois há sempre alguém querendo ir para onde está o dinheiro. “O gato comeu e ninguém viu”. Além do mais, Salvador não quer aprender com ninguém. Esse é um comportamento típo de ex-capital do império. São sua vicissitudes. A maior delas são as feridas sociais abertas, já purulentas e envelhecidas na carne metropolitana. Os arrastões abrem passagem e dão um recado direto ao grande público que veio atrás de alegria: “existirmos a que será que se destina?”

O destino é clandestino na Bahia. “Atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu”. E os arratões acontecem frequentemente na cidade antes e durante as grandes festas, mas a resposta é sempre a mesma: falta segurança pública, ou melhor, para um determinado público. A preocupação é com o folião e será assim sempre até que as tragédias forcem o olhar para a vista maldita da “triste Bahia”, tão dessemelhante. Incrível como não se pensa a segurança pública sem a ação extrema, dura e punitiva, coercitiva ou intolerante com a população. Por que não se pensa na segurança pública como uma nova forma de relacionamento do Estado com as comunidades mais pobres da cidade? Cadê o carinho transformado em ação pública de seguridade social?

Não há um único diagnóstico que diferencie a periferia de Salvador, ou a região suburbana, como é chique dizer aqui, das inúmeras periferias do país. É tudo igual? Sim. Porém, é igual no sentido de identificá-la para contê-la a fórceps. Só é conssentido o desamparo social porque aí interessa manter a rede de clientelismo aristocrático ou governamental. Dignidade custa caro nesta cidade. Por isso sai mais barato para uns manterem a rede de clientelismo, que institucionaliza o poder de quem manda ou acha que manda, e para outros demonstra que o baiano é carinhoso com seu povo, sempre alegre e festivo. Difício fugir desse tipo de lógica alturística e violenta ao mesmo tempo, como se uma condicionasse a outra e as duas se autosuportassem vingindo algum equilíbrio social, mesmo que perverso, vivendo do desdouro humano. Enquanto isso os arrastões seguem seu curso icnoclasta, destrói os mitos da baianidade nagô e expõe a baianidade perversa e interativa entre brancos e negros dessa cidade. Não seriam os estertores do império pedindo passagem?

Ou, como diria o poeta:

“Eu, por mim, queria isso e aquilo
Um quilo mais daquilo, um grilo menos disso
É disso que eu preciso ou não é nada disso
Eu quero é todo mundo nesse carnaval…

Eu quero é botar meu bloco na rua
Brincar, botar pra gemer
Eu quero é botar meu bloco na rua
Gingar, pra dar e vender”

E há quem diga que eu dormi de toca.
Abraço
Humberto

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora