Sem partidos

Coluna Econômica
O episódio do dossiê Vedoin mostra, claramente, um PT em pedaços. As demissões dos presidentes da campanha de Lula à presidência, de Aloizio Mercadante ao governo São Paulo, é clara evidência do racha.

Essa quebra se deu com o fracasso das lideranças paulistas que comandaram o partido na última década. Sindicalistas e representantes da corrente Articulação -liderada por José Dirceu—conseguiram juntar todas as tendências do PT debaixo de um modelo centralizador, que funcionou na eleição de Lula, e na garantia da governabilidade, ao enquadrar seus radicais.

No poder, esse estilo não funcionou. Mantiveram métodos de atuação que funcionavam no ambiente restrito de cidades administradas pelo partido, jamais no horizonte amplo de um país.

Um a um, foram caindo seus principais líderes, Dirceu, Antonio Palocci, José Genoíno, Delúbio Soares, Luiz Gushiken. No seu lugar, começou a se levantar uma nova ordem no governo, com os Ministros Tarso Genro e Dilma Rousseff, Patrus Ananias e Luiz Dulci. Esse grupo passou a articular lideranças estaduais que não haviam se envolvido na lambança do “mensalão”, o prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel, o governador do Acre Jorge Viana, o prefeito de Aracaju Marcelo Dedá, entre outros.

Mas, nesse ínterim, a nação PT se esboroou com uma estrela partida ao meio. Mesmo antes dos escândalos, os dirigentes petistas tinham pouco controle sobre seus livre-atiradores. Não cuidaram sequer de fazer um mapeamento adequado dos que foram jogados na máquina federal após as eleições. Depois da implosão do partido, antes que ocorresse a reconstrução -que está longe de ser alcançada—esses grupos se viram soltos no mundo, como livre-atiradores iraquianos após a queda de Sadam Husseim, sozinhos ou obedecendo às ordens da velha liderança.

Essas, forjadas na guerra contra qualquer inimigo, perceberam que estarão fora do jogo se vingar a estratégia do governo de buscar um armistício após as eleições. É o que explica essa sucessão de cabeçadas e essa maluquice de tentar melar o jogo, com o “dossiê Vedoin”, a quinze dias de uma vitória que parecia fácil.

Do lado do PSDB o quadro não é melhor. Há um conjunto de tucanos, liderados por Fernando Henrique Cardoso, que só conseguirá sobreviver em ambiente de guerra. Uma outra ala, liderada por Aécio Neves -e que certamente contará com o apoio de Geraldo Alckmin após as eleições—aposta em uma disputa política civilizada. O terceiro grande nome do partido, José Serra, ainda está quieto, sem definir publicamente qual será sua posição. Neste momento, está propenso à guerra. Baixada a temperatura das eleições, poderá repensar sua estratégia.

Tem-se, portanto, em crise os dois principais partidos políticos brasileiros formados na redemocratização. O PT perdeu-se nessa estratégia guerrilheira aloucada; o PSDB, nessa ceia de cardeais definindo, sem consulta alguma, os candidatos do partido.

Vinte e um anos após o início efetivo da democracia civil, o país não conseguiu consolidar um sistema partidário digno do nome. Daí a relevância da reforma política, assim que começar o próximo governo, seja quem for o vencedor.

“Todos os direitos reservados, sendo proibida a reprodução total ou parcial por meio impresso.”

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome