Sem título

Do leitor André Araújo

A percepção de que a existência de um Estado judaico na Palestina iria criar sérios problemas com os árabes lá residentes já estava clara em 917 quando o Governo britânico emitiu a Declaração Balfour que previa a criação de um lar judeu na Palestina.

A Inglaterra recebeu da Liga das Nações o mandato sobre a Palestina em 1920 e em 1937 propôs a divisão em dois Estados, rejeitada pelos árabes.

Essa é a raiz primeira da atual crise do Líbano e todos os desdobramentos desde 1917 até hoje remetem à mesma origem.

A idéia de que se destruindo o Hezbollah acaba o problema de Israel é falsa. O Hezbollah, assim como o Hamas, são apenas exteriorizações ocasionais de uma revolta latente entre árabes que rejeitam a criação de Israel nas terras deles e que se acham injustiçados pela Inglaterra e pelos Estados Unidos, patronos do nascimento desse Estado.

Liquidado o Hezbolah no dia seguinte aparecerá outro movimento, porque o problema que lhe deu origem permanece.

A capa de terrorismo também é insuficiente. Na história da criação do Estado de Israel existem raízes terroristas consideradas heróicas, como o Grupo Stern, chefiado por Menachem Begin, posteriormente Primeiro-Ministro de Israel e que explodiu o King David Hotel em Jerusalém matando 245 soldados britânicos, além dos grupos Haganah e Irgum, com longo currículo de explosões e atentados. Israel introduziu o terrorismo no Oriente Médio antes do primeiro árabe puxar um detonador.

O atual ataque ao Líbano tem contornos novos, que não existiram nos anteriores conflitos. Os libaneses maronitas, que são hoje dois quintos da população libanesa, no geral eram anti-muçulmanos, anti-Síria e pro-Israel. O ataque desproporcional e excessivo, que não poupa nem hospitais e ambulâncias da Cruz Vermelha, fez Israel perder apoios nesse grupo. Parece pouco lógico para Israel atacar em tal extensão a população civil e a infra-estrutura libanesa. Não fica claro qual o objetivo estratégico que será atingido com essa ação. Seria forçar o Governo libanês a expelir o Hesbollah? Mas se não conseguiram isso em momentos de prestigio como fazê-lo após a destruição do País?

A atitude dos Estados Unidos também é uma novidade. O apoio americano a Israel vem desde a criação do Estado, mas geralmente era mais equilibrado. Em 1956 o Governo Eisenhower obrigou Israel, França e Inglaterra a desocuparem o Canal de Suez, apesar do Secretario de Estado John Foster Dulles detestar o Presidente egípcio Gamal Abdel Nasser. O objetivo do Governo dos EUA era manter o equilíbrio regional. Hoje, meio século depois, o mesmo Governo joga na instabilidade regional como estratégia, linha anti-histórica para uma grande potência mundial.

Está claro que este conflito não vai conduzir a uma nova situação de equilíbrio. Ao contrário, o conflito tem todas as condições para aumentar a inquietação, os ódios e a instabilidade no Oriente Médio. Estadistas de maior envergadura como Rabin ou mesmo Sharon não teriam provavelmente jogado essa cartada tão arriscada. Dificilmente vão acabar com o Hezbollah, mas vão liquidar com o Estado libanês, um Estado em geral pró-Israel e importante para o equilíbrio regional, tampão entre a fronteira norte de Israel e a Síria. Por outro lado, na fronteira sul aumenta a instabilidade e a insegurança de Israel. Em Gaza, uma população economicamente destruída, sem perspectivas, confinada em um gueto entre o Exército de Israel e o mar, o que se pode esperar?

Ao norte, ao invés de acabar com o Hezbollah vão aumentar o seu capital político e prestigio entre as massas árabes. O imaginário islâmico dá grande valor ao heroísmo e ao sacrifício.

As ações do Estado de Israel, com exceções em poucos períodos, como os de Rabin, têm um componente de desbalanceamento, de paranóia, que em nada tem ajudado a causa judaica. Geralmente os EUA continham esse arroubo, mas agora em Washington há um Governo mais paranóico do que o de Tel-Aviv e que ao invés de moderá-lo, atiça-o.

Com essa atitude de agressividade e arrogância os israelenses jamais vão acabar com as ameaças terroristas. Se a História pode ensinar alguma coisa, tudo indica que vão aumentá-la e perpetuá-la.

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