Sem título

Alguns leitores colocam as primeiras contribuições, entendendo que as resistências contra Lula se devem à falta de eficiência do governo.

Acho que não é por aí. No taco a taco, diria que é quase idêntico o grau de (in)eficiência percebida tanto nos governos FHC como Lula.

Alguns exemplos:

1. Fazenda Banco Central: Armínio Fraga é percebido como mais competente que Henrique Meirelles. Implantou novas sistemáticas que aumentaram a transparência do BC e havia uma racionalidade percebida na sua política monetária, apesar dos evidentes equívocos cometidos em 2002. Meirelles (na verdade, Afonso Bevilacqua, a planilha por trás do BC de Lula) é ortodoxo, não avançou em nada no aprimoramento do modelo herdado e não passa idéia de racionalidade, que Armínio passava. Mesmo assim, é percebido como “competente” pela parcela da mídia mais crítica a Lula. O mesmo ocorreu com a Fazenda. No campo das formulações macro, Palocci e Malan se equivaliam. No campo micro, a equipe de Palocci foi mais pró-ativa, graças principalmente às formulações de Marcos Lisboa – uma craque.

2. Planejamento: José Serra e Martus Tavares, de FHC, tinham uma noção de planejamento muito mais sólida do que Paulo Bernardes, de Lula. Mas a tentativa de implantar o orçamento articulado em processos, com Martus, morreu por falta de vontade política de FHC e pelas restrições orçamentárias.

3. MDIC e Comércio Exterior: Alcides Tápias, Ministro de FHC, não se deu bem no MDIC, por problemas de estilo, nem seus sucessores. Luiz Furlan e Juan Quiros (da Apex) são percebidos como muito mais eficazes do que o governo FHC, graças à montagem de uma estratégia vencedora de comércio exterior. No caso do Itamarti, o governo FHC avançou em enfrentamentos na OMC, mas muito mais puxado pelo setor privado e pelo Ministério da Agricultura. O governo Lula manteve essa postura. Em relação ao aumento da influência do Brasil nos fóruns internacionais, o governo FHC foi positivo e o governo Lula também, mas muito mais pró-ativo – o que levou a derrotas também.

4. Agricultura: Pratini de Moraes foi um grande Ministro de FHC, apesar dos equívocos da política de retenção do café. Mas Roberto Rodrigues também é percebido como tal, apesar das restrições orçamentárias que comprometeram sua gestão.

5. Ministérios “gastadores”: Transportes foi um desastre idêntico, fonte de fisiologia da pior espécie, seja com Eliseu Padilha, com FHC, ou Anderson Adauto, com Lula.

6. Energia: não há termos de comparação, agora em favor de Lula. Com FHC houve o apagão; com Dilma Rousseff, um novo modelo.

7. Casa Civil: com FHC houve a tentativa de coordenação ministerial, com Clóvis Carvalho e Pedro Parente, que firmaram a imagem de grandes gerentes. Com Lula, inicialmente a pasta foi prejudicada pela ênfase quase exclusiva que José Dirceu dava à operação política. Mas recuperou credibilidade operacional com Dilma Rousseff.

8. Estatais: com FHC, a Petrobrás iniciou a profissionalização apenas nos dois últimos anos. Antes disso, era feudo de barganhas políticas, assim como todo o setor elétrico, entregue aos “eletrocratas” do PFL. Já o Banco do Brasil, com FHC, passou por uma revolução gerencial com Paulo César Ximenes. Mas foi utilizado politicamente, através de Ricardo Sérgio. Com Lula, o BB manteve um presidente profissional, Rossano Maranhão, mas houve infiltração em várias diretorias e, especialmente, enormes maracutaias na Cobra, a estatal de informática. A Infraero era uma caixa preta com FHC; e permaneceu caixa preta com Lula.

9. Área social: Paulo Renato, de FHC, saiu com boa imagem do MEC; mas Fernando Haddad, de Lula, também. Dona Ruth fez um trabalho pioneiro na área social, com FHC. Mas nada que chegasse perto da relevância do Bolsa Família. Na Saúde, a gestão FHC tem uma percepção de eficiência muitíssimo maior que o de Lula.

10. Aparelhamento: um dos grandes fatores de resistência a Lula foi a visão de “aparelhamento” do Estado brasileiro.

Na soma final, percebe-se que o resultado final não corresponde à soma dos fatores. É até possível que, juntando todas as pontas, a pontuação favoreça Lula. Portanto, a percepção negativa de seu governo, pelos críticos, está em outros fatores, que não o da competência intrínseca.

Adendo

11. As agências reguladoras são um dos pontos mais negativos do governo Lula. E a Polícia Federal e a liberdade do Ministério Público, um dos pontos mais positivos. Aliás, não há termo de comparação entre o trabalho do Ministro da Justiça de Lula, Márcio Thomas Bastos, e o de Miguel Reali Jr, de FHC. Márcio avançou na montagem de uma coordenação no combate ao crime organizado; e devolveu a credibilidade ao CADE.

12. O apagão aéreo afetou diretamente o governo Lula.

Adendo 2

AimeuDeus, é tão bom quanto estão apenas os leitores habituais, que não vêem o mundo em branco e preto, que sabem que realidades são complexas, e que é possível elogiar ou criticar atos de governos, sem ser situação ou oposição…

Abelhas assassinas, vocês ainda vão me fazer ganhar o céu.

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