Três presidentes e o novo

O Seminário “Mercado popular: o consumidor invisível”, ocorrido ontem em São Paulo, juntou representantes da Bolsa Família, consultores e estrategistas de grandes multinacionais, em uma comprovação do maior fenômeno econômico, político e social dos últimos 50 anos: a entrada da classe D e E em três mercados distintos, o do consumo, o da cidadania e o eleitoral.

Como mostrou Johnny Wey, responsável pela implantação da base de consumo popular da Nestlé no nordeste, são 136 milhões de habitantes que respondem por 72% do consumo de alimento e movimentam um mercado de R$ 43 bilhões.

Trata-se de um mercado basicamente heterogêneo. José Fuentes, da Phillips do Brasil, informa que o mercado brasileiro tem as características da Suíça, Portugal, Chile, Ucrânia, Filipinas e Malásia.

A questão mais relevante é a emergência desse consumidor como cidadão. Com o final da inflação, mesmo com a falta de dinamismo da economia esse consumidor começou a sair do limbo do sub-consumo. De lá para cá ocorreu um processo gradativo de redução da miséria. Segundo o Centro de Políticas Sociais da FGV, em 1992 35,16% das famílias tinham renda inferior a R$ 121,00 a preços de hoje da Grande São Paulo, ajustados por diferenças regionais de custo de vida; em 2003 esse percentual caiu para 28,17%; em 2005 para 22,77%.

Foi esse movimento que abriu espaço para o surgimento do novo consumidor, a nova menina dos olhos das empresas de varejo, e do novo eleitor, o novo foco preferencial dos partidos políticos.

Chama a atenção o comportamento de três atores políticos importantes dos últimos quinze anos frente a esse fenômeno. Primeiro, o instinto político fantástico de Lula, ao pressentir esse movimento. Em quatro anos praticou uma política econômica medíocre, políticas públicas atrapalhadas, seu governo meteu-se em sem-número de escândalos. Mas a aposta que fez nos desassistidos, primeiro com a retórica do Fome Zero, depois com a implantação competente da Bolsa Família, foi matadora.

O segundo ponto, foi a falta de visão histórica do sociólogo Fernando Henrique Cardoso. Semanas atrás, na carta ao PSDB, ele acordou com doze anos de atraso para o fenômeno que já estava pintando na época. Conclamou o partido a procurar o povo. Em seu período evitava demonstrações de solidariedade ao povo, para não parecer “populista”. Na semana passada, até em demônio começou a falar.

Finalmente, o fenômeno confirma o extraordinário “feeling” para o novo do ex-presidente Fernando Collor de Mello. Antes de qualquer político brasileiro, ele identificou as grandes linhas de mudança da economia e da sociedade brasileiras nas décadas seguintes: os programas de qualidade e gestão (para os quais nem FHC nem Lula ainda acordaram); a integração competitiva com a economia mundial; a abertura comercial para o exterior; o novo papel das massas (os “descamisados”). Collor foi um desastre político, criou resistências enormes na classe média e não tinha um partido para lhe dar respaldo.

Mas teve uma intuição de gênio para o novo, um autêntico animal político.

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