Um caso de intolerância

Enviado por: Aline Linhares

Nassif,

Por falar em intolerância como arma política, com referência ao regime militar e à intolerância no governo FHC a qualquer forma de valores nacionais, quero juntar esses dois temas no que importa ao trato que se tem dado à Saúde no Brasil. Não é bem o que você pede neste post, mas acho que é uma questão transversa que caberia aqui.

Gostaria de fazer um breve relato e, ao mesmo tempo, se você me permitir, uma homenagem a meu pai, Ericsson Soares Linhares, que foi sociólogo, médico e professor de medicina da UFRJ, um dos pioneiros (ou o pioneiro) em dosagens hormonais no Brasil e na América Latina.

Em meados da década de 50, Edinburgo, na Escócia, tornou-se o primeiro centro de referência mundial em dosagens hormonais, e a UFRJ não perdeu tempo, providenciou uma bolsa de estudos e enviou o prof. Linhares para lá. Na volta ele criou o serviço de dosagens hormonais da faculdade na Enfermaria 33 da Santa Casa da Misericórdia do RJ, e abriu seu laboratório particular.

Em 1969, a Dra. Rosalyn Yallow, de Nova York, recebeu o Prêmio Nobel de Medicina pela descoberta do método radioimunoensaio (medicina nuclear), que permitia dosagens no sangue, e não mais na urina, aumentando a precisão dos resultados e abreviando o tempo do exame, antecipando diagnósticos. Estávamos no regime militar e a UFRJ não liberou nenhuma bolsa de estudos, mas o prof. Linhares, em 1970, resolveu ir por conta própria, e estudou com a Dra. Yallow por um ano no Mount Sinai Hospital, NY.

Na volta decidiu trazer duas aparelhagens completas, do próprio bolso, uma para a faculdade e outra para o seu laboratório. Ao chegar a grande surpresa foi que os militares impuseram uma taxa de importação de 100% mesmo para a aparelhagem que seria doada à faculdade. E os aparelhos já eram caríssimos sem tal taxação. Era como se desenvolvimento da ciência médica nacional fosse considerado ato subversivo e precisasse ser impedido. Mas o prof. Linhares pagou o preço exigido, para decepção dos militares, e a Enfermaria 33 continuou mantendo níveis de primeiro mundo nos seus serviços.

No governo FHC, e a sua gestão “moderna” da área da Saúde, os preços dos serviços médicos praticados alcançaram tamanha irracionalidade que chegou-se a ter casos de exames que não poderiam mais ser realizados porque apenas o preço do kit necessário para realização do exame já era bem superior ao pagamento que seria recebido.

Por volta de 1998, começaram a surgir boatos de que a intenção desta prática seria levar à falência os laboratórios nacionais que acabariam sendo comprados por grandes laboratórios estrangeiros. Inicialmente os pequenos laboratórios foram comprados pelos grandes laboratórios ainda nacionais, e depois, de fato, os grandes nacionais acabaram sendo comprados pelos estrangeiros. Os nomes originais dos laboratórios nacionais foram mantidos, por exemplo o Lâmina, do RJ, que hoje pertence a uma empresa americana.

É interessante lembrar que houve uma campanha prévia na mídia derrubando os laboratórios nacionais. Lembro de uma reportagem do Fantástico, na Globo, relatando o envio de guaraná, como se fosse urina, para os nossos maiores laboratórios, que teriam realizado diagnósticos improváveis no guaraná, como gravidez, por exemplo. Sempre tivemos dúvidas da razão, e até mesmo da veracidade, de tal pesquisa.

Alguns poucos laboratórios nacionais sobreviveram, mas não saberia dizer agora quantos nem como, já que os nomes brasileiros em todos os estrangeiros foram mantidos. Prof. Linhares, com muita tristeza, resistiu por algum tempo associando-se a um amigo, Braga Filho, que fazia patologia clínica geral, mas veio a falecer em seguida, em janeiro de 2002.

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