Uma história de jornalismo

É interessante a coluna do ombudsman da “Folha”, Marcelo Beraba, sobre a cobertura do caso Daniela Toledo do Prado (a moça que foi presa acusada de envenenar a filha com cocaína).

Em relação à prisão, segundo Beraba, a “Folha” decidiu nada publicar, escaldada com o caso Escola Base, e com a lição de que informação de delegado e de promotor tem que ser recebida sempre com um pé atrás. O “Estadão” e “O Globo” publicaram a notícia, a acusação da polícia, o nome da mãe, mas sem destaque.

Essa cautela, adotada muito recentemente, é fruto direto das indenizações milionárias que as empresas jornalísticas tiveram que pagar às vítimas do caso Escola Base. Mesmo depois de comprovado o erro da cobertura, prosseguiu-se nessa linha de fuzilar reputações alheias. Só agora, quando estouram os primeiros processos milionários, há uma mudança de conduta. O que comprova o papel imprescindível do Judiciário e das indenizações no combate aos abusos. Atualmente, apenas a “Veja” continua se dedicando sistematicamente a fuzilar reputações e a se expor a ações judiciais.

Se houve um ganho, no campo da cautela, o episódio revelou amplamente a insensibilidade que tomou conta da mídia no tratamento de grandes temas.

1. Só se publicam denúncias que vêm prontas e acabadas.

2. Toda tragédia recebe tratamento escandaloso, esquecendo-se da matéria prima para reportagens que explorem aspectos humanos, que contem histórias trágicas sem o sensacionalismo barato da reportagem policialesca.

Ora, a notícia de que uma mãe possa ter envenenado a filha com cocaína pode gerar uma reportagem digna. Se houver suspeita de armação policial, vira uma grande reportagem.

Digo isso a respeito dos comentários do Beraba sobre o “Diário de São Paulo” e da carta do diretor de redação do Diário, Bruno Thys.

O “Diário” foi o único jornal que deu a denúncia inicial com destaque, e aí errou feio e comprometeu seu maior momento recente: foi o primeiro jornal a receber a notícia do caso Escola Base, mas, graças ao seu então diretor Miranda Jordão, recusou-se a dar por perceber que era duvidosa.

Só que o jornal persistiu na investigação, graças à sensibilidade da sua repórter Cristina Christiano. Segundo o relato de Bruno, publicado por Beraba:

“A repórter Cristina Christiano teve a atenção despertada para a possibilidade de erro ao fazer o perfil da mãe. Na casa de Daniele, ela viu roupas bordadas e detalhes que revelavam zelo, e não desdém da mãe. Orientada pelo editor Décio Trujilo, Cristina ouviu um toxicologista que foi categórico: os sintomas (pressão e temperatura baixas, batimentos cardíacos lentos e sono) não eram os de overdose, mas de quem tomava antidepressivos, ou seja, o fenobarbital, que efetivamente Victória usava. A repórter colheu informações em laboratórios e com uma professora de toxicologia da USP que afirmou: o exame (blue test) feito no dia da prisão poderia apresentar um falso resultado. Assim, em 10 de novembro -15 dias antes do resultado do laudo oficial-, Cristina publicou reportagem levantando a hipótese de erro, mostrando a incoerência dos sintomas de Victória e os de overdose, elementos suficientes para afirmar que Daniele era vítima”.

A cobertura da grande mídia, de certa forma lembra a história do repórter que foi cobrir um evento. No meio do caminho, uma enorme ponte ruiu. Ele voltou para a redação sem nenhuma matéria, nem do evento nem da ponte que ruiu.

Parabéns Cristina Christiano e Décio Trujillo, jornalistas.

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