A cordialidade e o paradoxo entre amor e ódio, por Breno Rosostolato

Sugestão de Paulo F.

do Jornal do Brasil

A cordialidade e o paradoxo entre amor e ódio

Breno Rosostolato*

Sergio Buarque de Holanda, um dos grandes historiadores deste país, nos revela o mito do homem cordial, descrito em Raízes do Brasil, livro de 1936. Cordial vem de coração, referente ou próprio do coração. Implica dizer que o brasileiro é um povo generoso de coração, a ideia recorrente e desgastada de que possuímos o “coração de mãe”, sempre cabe mais um. Amamos de coração, o que dá intencionalidade e intensidade, mas igualmente, odiamos de coração. Somos cordiais também quando odiamos.

Mas reconhecer que odiamos é difícil, porque não aceitamos este sentimento, ou melhor, reconhecemos o ódio, mas não em nós. Falar de ódio é mais cômodo quando atribuído ao outro. O professor e historiador Leandro Karnal define bem este pensamento quando diz que algumas pessoas parecem ilhas de pureza e inocência” cercadas de ódio por todos os lados. Karnal fala do pacifismo do brasileiro, o que seria constituinte da nossa civilidade, ou a ideia que fazemos dela.

Este conceito de civilidade é efêmero, pois cria um cenário fantasioso de que nossasfamílias, nossa cidade, é onde reside a civilidade e que a barbárie está fora dela. Uma falácia. Vivemos este mito do homem cordial e não nos damos conta que originamos, cultivamos e perpetuamos este ódio.

O Brasil é um país que se revela cada vez mais reacionário através de seu povo e dá inúmeros exemplos para sustentar esta triste realidade. As eleições de 2014 é o exemplo mais recente. As pessoas discutem e manifestam suas opiniões partidárias, se esforçando com inúmeros argumentos. Formulam teorias, desde as mais simplórias, denunciando falta de conhecimento sobre aquilo que defendem, até teorias conspiratórias, embasadas no medo e, possivelmente, na mesma falta de conhecimento. Muitos são ponderados, demonstrando preocupação com o rumo do país e fomentando boas e saudáveis discussões.

Infelizmente, o que tem acontecido nas redes sociais é uma verdadeira segregação e a manifestação explícita do ódio. Um binarismo entre bem e mal, pobres e ricos, Norte e Nordeste contra Sudeste e Sul. Visões deturpadas e violentas do outro que não deve ser entendido como rival ou inimigo, mas cuja opinião deve ser preservada e respeitada. Ter uma posição diferente da sua não deveria ser ameaçador. Se for, talvez o problema esteja em você, afinal a diferença é agregadora e não segregadora, e são as suas limitações que não permitem sustentar esta diferença.

Somos uma sociedade de pessoas que se esforçam para ser simpáticas, mas não empáticas. Retórica enfatizada por Karnal. O amor e ódio, que andam lado a lado, são a representação clara da dualidade emocional e que sustenta nossa contradição. Escutamos a opinião do outro, mas às costas dele criticamos e detestamos o que acabamos de escutar. Uma raiva que surge pela discórdia que cresce até virar ódio. Mas que está sempre nele e não em mim. Freud explica. É a morte na própria vaidade e no narcisismo descontrolado.

A intolerância à diferença é traduzida na necessidade doentia de tornar o outro igual, desqualificando suas opiniões e diminuindo-o como ser humano. Expressar a própria opinião e ter um posicionamento distinto é recriminado como algo errado. Eu não posso ser eu, tenho que ser o outro, senão sou retalhado. Entretanto, é a diferença do outro que cria reflexo em nós e favorece o autoconhecimento.

Depois da reeleição da presidente Dilma Rousseff, as redes sociais foram bombardeadas com insultos, comentários racistas e xenófobos contra os nordestinos. Uma confusão entre preconceito e ressentimento social com liberdade de expressão. Mas o ódio é tão contundente que leva as pessoas, facilmente, a mostrar o que elas possuem de pior.

A necessidade de se encontrar os “bodes expiatórios”, termo da bíblia judaica, explica que no dia da expiação, dia do perdão, o bode era um animal levado aos templos para que a ele todas as mazelas e pecados da sociedade fossem atribuídos antes do sacrifício. Reproduzimos, inconsciente e conscientemente, este movimento de encontrar “bodes expiatórios” para depositar nossas angústias.

O ódio cria unidade e agrupa as pessoas, pois é difícil amar, embora nos esforcemos, mas odiar é prazeroso, mesmo que sádico. Somos diferentes, mas, se temos a quem odiar, nos tornamos irmãos, como bem evidencia o historiador Leandro Karnal. A derrota do outro é mais saborosa do que a minha vitória, dialética reproduzida com maestria nas relações interpessoais. Fazer o bem e amar é me enfraquecer diante do outro. Requer sacrifício, gratidão e retribuição. Logo, me sentir humilhado por isso. É insuportável a sensação de sentir-se diminuído diante do outro. Já o ódio não, ele dá motivos para me vingar, me torna poderoso e mais forte do que o outro, talvez por isso, aconselhado a comer cru, para melhor degustação.

François de La Rochefoucauld, aristocrata e moralista francês, nos brinda com uma frase: “Nada é tão contagioso como o exemplo”. De fato, muitos que expressam seu ódio nas redes sociais se fortalecem à medida que ganham seguidores. Querem ser exemplos e enaltecidos como tal, na eloquência de pensamentos enfadonhos e na efervescência de seu desequilíbrio emocional, contagiando seus cúmplices com o pior que eles têm a oferecer. Talvez, de fato, não exista amor no Brasil.

* Breno Rosostolato é professor de psicologia da Faculdade Santa Marcelina.

 

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7 comentários

  1. Claro que não existe amor no

    Claro que não existe amor no Brasil. Temos milhares, ou melhor, inumeros casos/exemplos que comprovam isto. Alguns deles:

    Desde sempre conviver com escravos e aceitar que eles fossem maltratados gratuitamente e achar isso normal;

    Sentir-se bem convivendo com tantos miseraveis e famintos e achar isso normal;

    Ver tantos casebres e palafitas e achar isso normal;

    Conhecer nossa periferia e achar tudo normal;

    Ser contra, condenar e combater que o Estado faça alguma coisa para diminuir a miseria;

    Tratar de forma infame as ’empregadas domesticas’ que são poessoas que tanto nos ajuda facilitando nossas vidas e, até mesmo, criando nossos filhos; 

    Esse alto indice de himicidios, só prova que não existe amor.

    etc. etc. etc.

    E ainda nos achamos bonzinhos, cristãos e, pior, vamos à missa aos domingos e, arh!, a totalidade comunga. O mesmo deve acontecer nas outras igrejas. Saimos renovados e fortalecidos para continuar fazendo todas maldades.

     

     

  2. Florestan, cadê tu para iluminar esses mistérios…

    Esse efeito Tupi que temos nas veias e se confunde com viralatismos e cordialidade me faz passar mal.

    Mantemos o ritual e repetimos o mundo Tupi: amizade, aliança, guerra, antropofagia… e não vejo isso como “negativismo” não.  Mas o problema estaria na não construção crítica do que realmente nos tornamos, na complexidade da economia mundo, como uma sociedade secularmente aristocrática, oligarca, arcaica, extremamente belicosa, preconceituosa e escravagista.

    Superar isso e promover a originalidade da alteridade Tupi é difícil: vejamos os outros, enfim… 

  3. Reflexão

    Excelente texto para que possamos refletir sobre o nosso compartamento em sociedade, não atribuindo a outros falhas que estão em nós.

  4. alguns odientos não podem

    alguns odientos não podem representar a maioria.

    esse ódio não é inato, é construído como em qualquer sociedade.

  5. Aparentemente legal, mas muito individualista

    Talvez de fato precisemos avançar intelectualmente, cultivando mais a mente. Nosso Pais esta tão tomando pelo consumismo, pela sociedade do espetaculo e a imprensa tem nivelado por baixo, que às vezes fica dificil estabelecer um dialogo que saia dos parâmetros atual da superficiliadade. Todos querem tudo pra ja, todos têm opinião fechada sobre tudo e  os jovens, principalmente, não querem nada que não reconforte sua maneira de ver o mundo, o diferente.  

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