Como se desperta o pior que há em nós

Outras Palavras

Por Paul Verhaeghe ; Tradução Eduardo Sukys

Sociedades meritocráticas de mercado corroem autoestima. Estimulam, como defesa, superficialidade,
oportunismo e mesquinhez. Tornam-nos “livres” porém impotentes. Saberemos reagir?

 

Temos a tendência de enxergar nossas identidades como estáveis e muito separadas das forças externas. Porém, décadas de pesquisa e prática terapêutica convenceram-me de que as mudanças econômicas estão afetando profundamente não apenas nossos valores, mas também nossas personalidades. Trinta anos de neoliberalismo, forças de livre mercado e privatizações cobraram seu preço, já que a pressão implacável por conquistas tornou-se o padrão. Se você estiver lendo isto de forma cética, gostaria de afirmar algo simples: o neoliberalismo meritocrático favorece certos traços de personalidade e reprime outros.

Há algumas características ideais para a construção de uma carreira hoje em dia. A primeira é expressividade, cujo objetivo é conquistar o máximo de pessoas possível. O contato pode ser superficial, mas como isso acontece com a maioria das interações sociais atuais, ninguém vai perceber. É importante exagerar suas próprias capacidades tanto quanto possível – você afirma conhecer muitas pessoas, ter bastante experiência e ter concluído há pouco um projeto importante. Mais tarde, as pessoas descobrirão que grande parte disso era papo furado, mas o fato de terem sido inicialmente enganadas nos remete a outro traço de personalidade: você consegue mentir de forma convincente e quase não sentir culpa. É por isso que você nunca assume a responsabilidade por seu próprio comportamento.

Além de tudo isso, você é flexível e impulsivo, sempre buscando novos estímulos e desafios. Na prática, isso gera um comportamento de risco, mas nem se preocupe: não será você que recolherá os pedaços. Qual a fonte de inspiração para essa lista? A relação de psicopatologias de Robert Hare, o especialista mais conhecido em psicopatologia atualmente.

Esta descrição é, obviamente, uma caricatura exagerada. Contudo, a crise financeira ilustrou em um nível macrossocial (por exemplo, nos conflitos entre os países da zona do euro) o que uma meritocracia neoliberal pode fazer com as pessoas. A solidariedade torna-se um bem muito caro e luxuoso e abre espaço para as alianças temporárias, cuja principal preocupação é sempre extrair mais lucro de uma dada situação que seu concorrente. Os laços sociais com os colegas se enfraquecem, assim como o comprometimento emocional com a empresa ou organização.

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Bullying era algo restrito às escolas; agora é uma característica comum do local de trabalho. Esse é um sintoma típico do impotente que descarrega sua frustração no mais fraco. Na psicologia, isso é conhecido como agressão deslocada. Há uma sensação velada de medo, que pode variar de ansiedade por desempenho até um medo social mais amplo da outra pessoa, considerada uma ameaça.

Avaliações constantes no trabalho causam uma queda na autonomia e uma dependência cada vez maior de normas externas e em constante mudança. O resultado disso é o que o sociólogo Richard Sennett descreveu com aptidão como a “infantilização dos trabalhadores”. Adultos com explosões infantis de temperamento e ciúme de banalidades (“Ela ganhou uma nova cadeira para o escritório e eu não”), contando mentirinhas, recorrendo a fraudes, rogozijando-se da queda dos outros e cultivando sentimentos mesquinhos de vingança. Essa é a consequência de um sistema que impede as pessoas de pensar de forma independente e que é incapaz de tratar os empregados como adultos.

Porém, o mais importante é o dano à autoestima das pessoas. O autorrespeito depende amplamente do reconhecimento que recebemos das outras pessoas, como mostraram pensadores desde Hegel a Lacan. Sennett chega a uma conclusão parecida quando percebe que a questão principal dos funcionários hoje em dia é “Quem precisa de mim?” Para um grupo cada vez maior de pessoas, a resposta é: ninguém.

Nossa sociedade proclama constantemente que qualquer pessoa pode “chegar lá” caso se esforce o suficiente. Isso reforça os privilégios e coloca cada vez mais pressão nos ombros dos cidadãos já sobrecarregados e esgotados. Um número crescente de pessoas fracassa, gerando sentimentos de humilhação, culpa e vergonha. Sempre ouvimos que até hoje nunca tivemos tanta liberdade para escolher o curso de nossas vidas, mas a liberdade de escolher algo fora da narrativa de sucesso é limitada. Além disso, aqueles que fracassam são considerados perdedores ou bicões, levando vantagem sobre nosso sistema de seguridade social.

Uma meritocracia neoliberal quer nos fazer acreditar que o sucesso depende do esforço e do talento das pessoas, ou seja, a responsabilidade é toda da pessoa, e as autoridades devem dar às pessoas o máximo de liberdade possível para que elas alcancem essa meta. Para aqueles que acreditam no conto das escolhas irrestritas, autonomia e autogestão são as mensagens políticas mais notáveis, especialmente quando parece que prometem liberdade. Junto com a ideia do individuo perfeito, a liberdade que acreditamos ter no Ocidente é a grande mentira dos dias atuais e de nossa época.

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O sociólogo Zygmunt Bauman resume perfeitamente o paradoxo de nossa era como: “Nunca fomos tão livres. Nunca nos sentimos tão incapacitados.” Realmente somos mais livres do que antes no sentido de podermos criticar a religião, aproveitar a nova atitude laissez-faire com relação ao sexo e apoiar qualquer movimento político que quisermos. Podemos fazer tudo isso porque essas coisas não têm mais qualquer importância – uma liberdade desse tipo é movida pela indiferença. Por outro lado, nossas vidas diárias transformaram-se em uma batalha constante contra uma burocracia que faria Kafka tremer. Há regulamentos para tudo, desde a quantidade de sal no pão até a criação de aves na cidade.

Nossa suposta liberdade está ligada a uma condição central: precisamos ser bem-sucedidos – ou seja, “ser” alguém na vida. Não é preciso ir muito longe para encontrar exemplos. Uma pessoa muito bem qualificada que decide colocar a criação de seus filhos à frente da carreira certamente receberá críticas. Uma pessoa com um bom trabalho, que recusa uma promoção para investir mais tempo em outras coisas é vista com louca – a menos que essas outras coisas garantam o sucesso. Uma jovem que deseja ser uma professora de primário ouve de seus pais que ela deveria começar obtendo um mestrado em economia. Uma professora de primário, o que será que ela está pensando?

Há lamentos constantes com relação à chamada perda de normas e valores em nossa cultura. Ainda assim, nossas normas e valores compõem uma parte integral e essencial de nossa identidade. Portanto, não é possível perdê-las, apenas mudá-las. E é exatamente isso que aconteceu: uma mudança de economia reflete uma mudança de ética e gera uma mudança de identidade. O sistema econômico atual está revelando nossa pior faceta.

 

http://outraspalavras.net/destaques/como-se-desperta-o-pior-que-ha-em-nos/

 

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Há 85 anos, nesse mesmo período, ou seja final de outubro, ocorreu uma das maiores crises financeiras da história, o “crash” da Bolsa de Nova Iorque em 1929, e que se seguiu de uma grande depressão em escala mundial.

Vitoriosos na I Grande Guerra, os americanos entram num período de properidade, consumindo novas tecnologias, criando novos hábitos, e formas de vida, e nessa toada entram de forma maciça pela primeira vez no mercado de ações.  “Nós acreditamos agora em satisfação imediata. Cuide do agora. Viva para o momento” e assim que um dos entrevistados do documentário da BBC “A Grande Crise de 1929”, resume o pensamento das pessoas naquele momento. Nesse mesmo documentário, é enumerado as diversas causas da derrocada do mercado de ações, e suas consequências que ainda surgiram poucos anos depois, incluindo aí uma crise bancária.

A ruína na vida das pessoas nessa época é retratada por um vasto material fotográfico devastador, por outro lado os que se beneficiaram com a crise, muitos idolatrados continuaram a influenciar os caminhos dos EUA posteriormente. A trilha desses oportunismos já estavam traçados, ou melhor (ou pior), a crise de 1929 foi esquecida, o mercado especulativo vem aos poucos ganhando força, e ao mesmo tempo o mundo vai assistindo crises pontuais que começam a contaminar regionalmente mas que também há reflexos em uma outra parte do planeta, e organismos internacionais administram essas crises e que em seguida aparece em uma outra região os mesmos problemas…… e chegamos em 2008. O documentário foi produzido em 2009, no auge(?) da crise, não o final como querem alguns, e assim tenta traçar paralelos entre os dois períodos.

As feras ainda estão soltas, inclusive hoje nas bolsas de valores.

 

 

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4 comentários

  1. Texto

    Nassif,

    Muito bom.

    Entendo que a descrição das transformações motivadas pelos momentos de martírio econômico, que acredito ser também válido para aquele martírio que atinja apenas uma ou poucas pessoas, esteja bem de acordo com a realidade.

    E quanto ao “ser alguém na vida”, os anos passam e a cobrança permanece intacta. O texto é muito real e verdadeiro (ainda não assisi ao documentário), e tais características certamente incomodam a muitos que o lêem, pois não tem o habitual roteiro de auto-ajuda tão apreciado por aqui.

  2. o homem é seu tempo esua

    o homem é seu tempo esua circunstancia.

    norberto elis fla dos hábitos para explanar o

    que seria o individualismo na história.

    costumes.aprender comer com garfo e faca,

    por exemplo.

    por aí.

    plhemosao redor.o que somos.

    nossos hábitos.

    o cru e o cozido.

    levi-strausss.

    o homem cozeu e civilizou-se.

    hoje alguns acreditam nopuroindvidualismo, egoístas.

    mal-estar da civiização. freud.

    haja tempo para profundar.

     

     

     

  3. Legal

    O cara não sabe se reclama da meritocracia dita neoliberal ou do excesso de normas imposto pelo Estado.

    Esquizofrenia pura.

  4. Meio superficial esse artigo

    Há 30 anos um analista bem mais arguto e penetrante que o Bauman já diagnosticava os intestinos da contemporaneidade com uma densidade notável.

    Quem leu Christopher Lash, sobretudo em coisas como “A Cultura do Narcisismo”, entra nesse tema com um aparato analítico bem mais fino que as invocações à “fluidez” da posmodernidade e coisas análogas.

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