Perspectivas para 2017, por Rui Daher

Perspectivas para 2017

por Rui Daher

em CartaCapital

Serão as perspectivas para 2017, na opinião dos especialistas acolhidos pelas folhas e telas cotidianas, melhores do que as retrospectivas por elas mesmas realizadas para o ano que se vai?

Baita muro, construído com tijolos de argila ideologicamente cozida. Equilibram-se sobre ele sem atentar para formas mais baratas e seguras de fabricá-los e dispô-los sobre o nosso peso.

Não que ranheta esperasse deles, se perguntados, responderem “não sei”. Há um dever de jactância opinativa, por mais sensatas ou estapafúrdias que sejam.

Ma perché mi chiedono, perguntaria o capitão do navio que não voltou à bordo.

A única opinião que me pareceu fazer algum sentido foi a trazida pela Folha de São Paulo, na edição do dia de Natal, de que para nove em cada dez brasileiros, “o sucesso financeiro vem de Deus”.

A melhor peitada que sábios Zés e Marias poderiam dar nos rapazes do mercado financeiro. Algo como “pô, vocês não entendem merda nenhuma, só ganham quando Deus acerta”. O mesmo vale para a indústria, o comércio e os serviços nacionais. Ao ex-governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, por exemplo, não deve ter faltado reza.

“Todo o sucesso financeiro da minha vida eu devo, em primeiro lugar, a Deus”, fala um entrevistado. Quem viria em segundo lugar? A AK-47 é que não seria. Vive calada.

“As pessoas pobres, em geral, não têm fé em Deus, e por isso não conseguem sair dessa situação”, diz outro entrevistado. Bem que eu tenho recomendado aos repórteres Nestor e Pestana, do nosso Blog-Boteco, no GGN, mais fé, orações e missas. Quem sabe a mira Divina nos alcança e troquemos as cortinas da Redação … ateus irresponsáveis.

Eu mesmo, neste Natal, um tanto inconsequente, polêmico e impuro, depois da ceia com mulher, filhos, cães e pernilongos, que poucos foram os refugiados para atender tantas consciências pesadas, me pus a ver e ouvir Bergoglio, na Missa do Galo. “É de manhã (…) Vou pela estrada/E cada estrela/ É uma flor/Mas a flor amada/É mais que a madrugada/E foi por ela/Que o galo cocorocó”.

Na minha cabeça, surpreendentemente sóbria, Francisco, em meio àquela parafernália ritualística, declamava os versos de Caetano e pedia uma flor amada que envolvesse cada pobre do planeta.

Entendi Francisco e o estendi não a Deus ou Seu Filho, mas ao revolucionário, indignado com a desigualdade que naquela Basílica, tomada por senhores e senhoras enlutados, caminhava com seus apóstolos fiéis Tito e Beto, Paulo Arns, Leonardo Boff, Che, Castro, “Ganga, Lumumba, Lorca, Jesus”, ajuda de Bosco e Blanc, também no salmo:

“Grampearam o menino do corpo fechado/E barbarizaram com mais de cem tiros/Treze anos de vida sem misericórdia/e a misericórdia no último tiro”.

Essa a minha religiosidade. Inverter, em 2017, um ano de “muita matraca pra pouco berro”.

Agronegócios em 2017

Precisa? Tá.

O Brasil colherá mais uma safra recorde de grãos. Plantou-se mais, com alto uso de tecnologias convencionais, embora mais caras e menos efetivas se não completadas com tratamentos orgânicos, e o clima está ajudando.

A comercialização será feita a preços menores do que os da safra anterior, não ao ponto ainda de quebrar alguém, mas já no bojo do início de uma etapa altamente protecionista.

No Brasil, as legislações favorecerão a compra de terras por estrangeiros e a liberação de agrotóxicos fabricados pelas multinacionais. Assentamentos agrícolas serão sacrificados e mais se politizarão. Poucas exigências do código de preservação ambiental serão cumpridas.

Direitos constitucionais do trabalhador rural serão retirados. As nações indígenas e quilombolas nem apitos terão. A agricultura familiar continuará a se preservar em luta própria, se enforcando ao dar aos bancos garantias reais, nas formas de seus meios de produção (terras e máquinas).

Coluna

Desde 03 de maio de 2013, de forma Ininterrupta, o site de CartaCapital, publicou, semanalmente, uma coluna assinada por mim. Creio não ser justo. Se para mim, escrever é como estar em férias, para os meus editores e leitores, ler-me pode exigir um esforço laboral maçante. Vou trabalhar e dar-lhes férias de um mês. Volto na 1ª semana de fevereiro de 2017. Bom descanso.  

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13 comentários

  1. Enquanto P V C se esparrama

    Enquanto P V C se esparrama em estatísticas, o outro colunista esportivo Tostão acredita piamente no acaso.

       E eu tbm.

    Por isso ”perspectivas” é algo tão subjetivo, quase um horóscopo, que não acredito em nenhuma.

    • Anarquista sério,

      exatamente o que penso e expresso no texto:

      “Não que ranheta esperasse deles, se perguntados, responderem “não sei”. Há um dever de jactância opinativa, por mais sensatas ou estapafúrdias que sejam”.

      Abraço e bom Ano Novo.

  2. Ler uma chamada de matéria

    Ler uma chamada de matéria “Perspectivas para 2017”, com a imagem de um papa dando a extrema unção! Demos uma zoiada supersticiosa por riba… mais tarde a gente lê. amanhã talvez…

  3. Desculpe Rui, mas acho que

    Desculpe Rui, mas acho que nem precisa ler seu texto. As imagens já dizem tudo. As perspectivas para 2017 são rezar para Deus dar uma mãozinha e senão der certo, reclamar com o Papa, o porta-voz Dele na terra. 

    • Deus e a Economia

      Considerando que um terço da popolução mundial nasce para passar fome e morrer na miséria, irremediavelmente, sem esperança, se Deus existe é um sádico. Que tipo de pai condenaria propositadamente uma parte de sua prole a tal destino?

      Se as pessoas tirassem seus ohos do céu bíblico e olhassem ao seu redor, por certo teraim muito mais chance de mudar o seu destino. Sem confundir fé com religião, esta última em nome da primeira tem uma história de atrocidades, dominação de povos e de exploração muito mais evidente do que de solidariedade e paz entre os homens. Quanto mais as pessoas se ligam à religião e se apegam  à fé, pior, a sociedade que formam.

      No que se refere à sociedade ocidental um humorista judeu apontou a raiz do problema e recomendou: “não tentem entender o velho testamento, esse livro é nosso e não de vocês, vocês não o entendem, foi feito para manter os judeus da época longe das cabras, da mulher do vizinho, tentar conter os saques e os roubos e impedir que se matassem uns aos outros”. É um conjunto de fábulas cujo objetivo focava controlar um povo rústico e ignorante que vagava pelo deserto ou habitava regiões inóspitas, onde as leis do homem pouco peso tinham na regulação da convivência social.

      Por outro lado, teríamos um mundo muito melhor se observássemos os ensinamentos de Jesus: amai-vos uns aos outros, praticais a caridade, a humildade, a tolerância e a compaixão.

      A ironia é ver que esse traços costumam ser mais marcantes em ateus do que em fundamentalistas  religiosos.

       

      • Caro Brasiliensis,

        obrigado por enriquecer meu texto com comentário tão interessante. Foi exatamente o que quis dizer, mas com alusões menos sábias. Enfim, é o que penso. Abraço e ótimo Ano Novo.

    • Obrigado Roberto,

      pena que as férias são só de escrever. Na minha profissão, terei que trabalhar muito, pois aos poucos a crise vem chegando também na agricultura, principalmente na pequena, horticultores, etc. Um grande abraço.

  4. + comentários

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