Por uma poética da maturidade, por Márcia Denser

 
Por Márcia Denser
 
Há alguns anos um amigo escritor me disse (recitou? citou?) que a velhice é um longo naufrágio. Porque a pessoa não desaba de repente: a idade vai dando o ar da graça por indícios esparsos, aqui e ali, tão tênues que a princípio você não nota, não associa, aliás você DISSOCIA completamente tudo o que diz respeito ao fato de estar envelhecendo. 
 
Quando não racionaliza. Secura no olho? Computador demais. Bico de papagaio? Hereditário. Protocolo de titânio? É a tecnologia. Histerectomia? Bobagem.
 
Nesse ínterim você descobre que já não tem o mesmo pique: não dá mais pra emendar noite e dia, não dá mais pra dançar tipo dezoito horas seguidas, não dá mais para pedir bloody mary logo cedo pra curar ressaca, é bom parar de ser bandido. E se não é a falta de pique é a falta de saco. Fazer dietas x, y, z, ultra-radicais, tipo faquir, tanta dieta pra quê se você não vai transar com ninguém nos próximos vinte anos? 
 
Mas tem coisa boa: você também não tem mais saco para: 1) mentir; 2) para os outros; 3) para si próprio. Nem saco, nem tempo, nem interesse,  essa merda toda.
 
Sabedoria, no good, ninguém está interessado, sem contar que cultura é aquele lugar onde agora só proliferam os muito medíocres. Neguinho sem cacife nem QI pra estudar pra médico ou engenheiro ou advogado resolve fazer uma instalaçã ou ocupaçã ou intervençã ou publicaçã em livro ou na internet ou entã virar “gestor cultural” e atraçã na Adriane Galisteu, noves fora a sacanagem.
 
Cultura definitivamente no good, não dá ibope.
 
Outra: não vou ficar aqui repetindo todos aqueles clichês que você ouve dia e noite há milênios sobre morte, velhice, declínio, porque a idéia é abrir caminho em direção a algo novo, algo que nem eu nem você nem ninguém sabe ainda, e a via de acesso seria a proposta de uma poética da maturidade que evoluísse – como se isso fosse possível – na corda bamba entre o sublime e o ridículo.  
 
Aquele verso de Neruda fica ressoando em meus ouvidos: “então nos despimos como se para morrer ou nadar ou envelhecer” – porque parece que precisamos nos despir de toda vaidade e de todo desejo – as cadeias da alma – para começar a empreender a derradeira jornada rumo aos últimos vinte anos de vida, se os tivermos. Porque teremos pouco tempo. Para fazer o que precisamos fazer. Para assim justificar nossa passagem pelo mundo. E isto é terrível. Meu Deus, íamos fazer tanta coisa, escrever tantos livros. 
 
Mas quando finalmente a alma fica livre para alçar seu vôo, é aí que o corpo mais nos solicita. E prende ao solo.
 
Na juventude, a alma ou espírito ou mente, não sei o nome exato disso a que chamamos eu profundo, mas talvez seja por isso que na juventude a mente apenas rasteja vinda lá debaixo, da treva, sem luz e sem ar, rasamente, sem sabedoria, hesita em levantar-se – o corpo poderia voar – mas o coração e o espírito se deixam arrastar de um lado para o outro, atraídos por qualquer objeto idiota, qualquer um. Desde que brilhe.
 
Que fique bem claro: isto não é auto-ficção, tampouco auto-naufrágio, até porque escritor é aquele nadador com várias medalhas olímpicas que, cada vez que chega à 
beira da piscina, se dá conta que não sabe nadar, já o fez um dia, mas agora ele não lembra, contudo mergulha mesmo assim, toca o fundo e milagrosamente consegue emergir.
 
Completamente só e ofegante, mas vivo.
 

5 comentários

  1. Amigos e amigas, vou

    Amigos e amigas, vou aproveitar a deixa e fazer um convite: as 5a. feiras, 20 horas, a Márcia ministra uma oficina online, pelo Skype e há vagas no momento…..trata-se de uma escritora renomada, com bastante obras publicadas e metódica…..durante a aula ela fala de literatura, lê textos, repassa dicas de escrita, faz correção, rola feitura de textos durante a aula e depois…ela faz revisão se for o caso…e de vez em quando rola  um papinho sobre a conjuntura…muito bom e a Márcia é pessoa boníssima e divertida….você vai gostar…eu já participo e por isso recomento….contato pelo facebook ou email: dianadenser@gmail.com

    Comentando o post:

    Mais cedo, ao ler “Quem ainda quer saber do Brasil?, por Alexander Busch” uma frase, bem no final, de um jovem, me fez lembrar desse texto da ótima Márcia Denser. 

    “O tom geral entre os entrevistados: eles não acreditam que, no médio prazo, o Brasil vá melhorar e temem perder os melhores anos de sua vida no país. Um jovem deixou a situação bem clara numa declaração à Folha de S. Paulo: “Dez anos de crise não é muito para um país, mas é muito para a vida de uma pessoa.”

    Quem ainda quer saber do Brasil?, por Alexander Busch

    https://jornalggn.com.br/noticia/quem-ainda-quer-saber-do-brasil-por-alexander-busch

    Se os jovens estão aflitos diante diante da perspectiva sombria dos próximos 10 anos, como euzinho aqui devo me sentir, se no próximo janeiro,  faço 60….preciso falar disso, até mesmo como forma de espraiar a coisa: ou de sair pela tangente: mas parece que não há como: chegam as dores, a lentidão, os lapsos de memória: o que nos dá prazer ajuda: a arte, os encontros..e as inas: 

    dopamina

    serotonina

    metalonina

    noradrenalina

    oxittocina

    endorfina

    glicina (http://neuromed91.blogspot.com/2010/08/gaba-e-glicina.html)

    Interessante, todas essas estruturas moleculares tem um desenho hexagonal, 

    https://www.instagram.com/p/Bk4ghknB6jk/?taken-by=mensario.marte

    O que será que o hexa tem a ver com isso…acho que dá um work in progress sobre o hexágono…vou é por a mao na massa para compreender o hexa….o ina….

    INA.FORMA.VOCAÇÃO.

    Agora me lembro que, la pela década de 80, sob estado visionário, isso que chamam de sonho, vi um livro dividido em 3 partes: na primeira parte, textos livres, como que sob  automatismo psiquico e essa parte se chamava INA….

    …na segunda parte as FORMAS: objetos, pinturas, ilustrações….o contraste….

    …na tereceira parte o conhecimento: ..era o momento vocação….e vi uma sequência de textos escritos como que por cientistas, escriores, pofessores….no máximo 30 linhas….

    INA.FORMA.CONHECIMENTO.

    Posso mudar para Visão.Forma.Conhecimento.

      

     

     

     

     

     

  2. adorei tudo o que foi lido…

    acrescentando apenas que não sofro disso de estar aparafusado ao chão graças a um truque muito simples

    e, até ontem, infalível…………………..mentalmente traço linhas entre mim e os objetos que comigo habitam qualquer lugar

    estou aparafusado e ciente, conhecedor de tudo que há no espaço até um objeto qualquer………………………………………………..

    é assim que funciona a ciência mas eu fujo dela, contorno, ao tomar o lugar do objeto e dali olhar para o ponto onde eu estava aparafusado…………………………qual não sempre foi meu espanto ao perceber dali que as linhas que eu traçei desaparecem juntamente com todos os outros objetos…………………………………………..ihhhhhhhhhhhhhhhhhhh

    como é difícil fugir da mente de um observador humano……………………………………….ihhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh

    como me faltam algumas palavras da linguagem humana que eles usam na ciência…………………….ihhhhhhhhhhhhhhhhhhh

    pra velhice é melhor dizer apenas que o ideal é não ter objetos ou obstáculo nenhum

    mas aí é que são elas………………………….como tornar a vida interna semelhante à externa?

    para o tudo sentir, o ideal é não fixar o olhar em nada……………………é assim que as linhas desaparecem

    de repente é só o tal vazio, o tal sem nenhuma projeção cerebral externa, sem pirar ou se drogar com remédios

    envelhecer é deixar que apertem mais o parafuso…………………………………..ihhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh

    de repente é só por ter um parafuso a menos……………………………..um dia eu vou encontrar este parafuso, peregrino!

    vai nada! porque você só procura no cérebro…………………………….não é um a menos, é um móbile infantil

    da Natureza

     

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