As pesquisas em nanotecnologia no Brasil

Por Marco Antonio L.

Nanotecnologia: uma ameaça invisível

No Brasil de Fato

Ramilla Rodrigues, de Brasília (DF)

De frutas que duram 20 dias a telas de smartphones, a nanotecnologia está cada vez mais presente na vida dos brasileiros. Essa nova área de estudo é, segundo o pesquisador Guillermo Foladori, coordenador da rede latino-americana de nanotecnologia e sociedade, a manipulação de átomos das moléculas para formar novos produtos, trazendo novas funções ou até mesmo a criação de um novo ser. Para se ter ideia, uma nanopartícula é cerca de 70 mil vezes menor que a espessura de um fio de cabelo.

No fim da década de 1990, o Brasil começou a investir em nanotecnologia. O investimento foi tardio, comparado aos estudos em países estrangeiros que hoje são a vanguarda do setor, como Estados Unidos (onde a nanotecnologia já era estudada desde meados da década de 1960). A nanotecnologia entrou na pauta de investimentos do governo no Plano Plurianual (PPA) 2000-2003. No PPA 2004-2007, a área ganhou um programa específico.

Atualmente, o país está entre as dez nações que mais investem em patentes sobre fertilizantes à base de nanotecnologia do mundo. De acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, em 2005 o investimento correspondia a R$ 7,5 bilhões. Em 2007, o valor quase dobrou: foram R$ 12 bilhões. Em seis anos, chega a uma média de R$ 23,3 milhões por ano. Porém, esses investimentos são concentrados na área de fertilizantes, visto que o Brasil é um dos maiores consumidores desses produtos no mundo. O país investe pouco no setor de produtos nanoestruturados. De acordo com a Federação de Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Fierj), o Brasil responde por 0,03% da produção mundial em nanotecnologia.

Apesar do Brasil ser um dos países onde os estudos sobre nanotecnologia estão crescendo com maior rapidez (1500%, atrás apenas de Cingapura e Coreia do Sul), os recursos não estão divididos de forma igualitária. Segundo o coordenador da Rede de Pesquisa em Nanotecnologia, Sociedade e Meio Ambiente (Renanosoma), Paulo Martins, a área de estudos dos impactos é negligenciada no Brasil. “Os recursos públicos estão sendo apropriados para as ciências de produção, mas não nos impactos que a nanotecnologia pode gerar no meio ambiente, na sociedade, na saúde do trabalhador. Isso denota uma visão hegemônica”, diz Martins.

Apenas em setembro de 2011 foi liberado um edital para estudos dos efeitos toxicológicos da nanotecnologia, correspondente a cerca de R$ 3,8 milhões e representa 0,01% do total de investimentos no país. O valor é cerca de 0,1 % do que é aplicado nos Estados Unidos pela National Nanotechnology Initiative (NNI), órgão que regula as pesquisas americanas na área, e que pretende dobrar o valor do investimento, que atualmente é de 4% do total de recursos (cerca de 0,25% do PIB americano).   

Obras do segundo módulo do Laboratório Nacional de Nanotecnologia

para o Agronegócio (LNNA), em São Carlos (SP) Foto: Embrapa

Nanotecnologia na agropecuária

A Empresa Brasileira de Agropecuária (Embrapa) é pioneira na pesquisa e desenvolvimento de nanotecnologia no Brasil. Os estudos iniciaram na década passada na Unidade Instrumentação, em São Carlos (SP). São três linhas de pesquisa principais: sensores, que são superfícies capazes de interagir com moléculas de um composto (podem ser usadas contra bactérias, agrotóxicos em meio aquoso e na detecção da qualidade de frutos); embalagens e revestimentos, como os nanofilmes de alimentos que aumentam o tempo de conservação (20 dias para alimentos in natura e cerca de 8 dias para alimentos fatiados) e aproveitamento de resíduos, ou seja, reciclagem de dejetos provenientes da agroindústria.

No caso dos nanofilmes, a Embrapa produz uma espécie de membrana feita de polissacarídeos provenientes de bagaço de cana ou de resíduos animais da indústria pesqueira. Essas membranas possuem em torno de vinte nanos (cerca de 3 ou 4 mil átomos) e se incorporam no alimento consumido. Em entrevista à Rede de Pesquisa em Nanotecnologia, Sociedade e Meio Ambiente (Renanosoma) o pesquisador da Embrapa Odílio Assis disse que a inovação pode ser útil para empresas aéreas, que procuram uma forma de manter alimentos conservados por mais tempo.

Na Embrapa Recursos Genéticos e Tecnologia (Cenargen), em Brasília, os estudos são concentrados na área de nanobiotecnologia, como desenvolvimento de nanopartículas, nanobiossensores e nanofiltros. Uma das aplicações são as embalagens inteligentes, feitas de polietilenos e peptídeos. Tais produtos servem para avisar ao consumidor que o alimento está estragado a partir da mudança de cor.

Alguns produtos, como a língua eletrônica, um aparato mais sensível que a língua humana, já estão disponíveis em escala produtiva. Para o pesquisador da Cenargen, Luciano Paulino da Silva, o futuro da nanobiotecnologia é promissor na Embrapa: “As perspectivas são de que cada vez mais a nanobiotecnologia possa contribuir com avanços na agricultura de modo a propiciar agregação de valor econômico, social e ambiental a produtos e processos”.

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