Sobre Einstein e Lattes

Por julio1

Gente, cuidado…

1- Lattes não teve a envergadura intelectual que se supõe. Hávia muito tinha fixação em “derrubar Einstein”. Lembro-me bem do fim dos anos 70 ou começo dos anos 80 quando saiu pelos principais centros de física do Brasil com um palestra sobre evidências de falha da relatividade restrita em que dizia “Einstein fez fora do pinico”. Na USP, passou um vexame memorável quando Moysés Nussensveig levantou, foi ao quadro e mostrou os erros de Lattes. Triste…

2-Relatividade restrita e geral não são a mesma coisa. São ambas teorias das mais bem testadas.

3-A questão de quem fez primeiro o quê é sempre complicada na ciência. No caso Einstein e Poincaré devemos lembrar que “uma teoria não é uma fórmula”. Einstein apresenta uma visão da física que a revoluciona, através de poucos postulados básicos. Essa simplicidade dá uma chave para todos os desenvolvimentos futuros da física no século XX. Assim, E=mc^2 em Poincaré é algo que é um detalhe do qual ele não podia tirar nada de fundamental. Em Einstein – 1905- entende-se a profundidade da equação e se tira suas consequências.

4- Um exemplo de como teorias se impoem: as órbitas dos planetas podem ser explicadas por epiciclos ptolomaicos, basta adicionar um número muito grande deles. Mas a teoria heliocentrica de Copernico impôs-se em poucos anos pela simplicidade e clareza.

5- É necessário não exagerar a importância de Lattes na física. Foi normal não ganhar o prêmio Nobel pois o motor intelectual das descobertas nas quais esteve envolvido foi Powell e não Lattes. É notório que Lattes tinha problemas psíquicos graves e adorava provocações. Está longe de ser um gênio incompreendido. 

Por Mariano S. Silva

Caro Levi Costa,

Se eu me lembro bem dos fatos da época, Lattes executou um experimento simples de incidir um feixe de laser He-Ne ( desses modelos que existem em laboratórios didáticos) em uma rede de difração e observar o desvio do feixe atrás desta durante muitos dias seguidos. O que ele notou foi que o feixe difratado (atrás da rede) , o qual ele projetou em uma tela, descrevia um movimento periódico com período de vinte e quatro horas. Ele deduziu, apressadamente, que havia encontrado um efeito físico da composição de velocidades do movimento de rotação com o de translação da Terra. Isto é um efeito que a teoria da relatividade restrita (ou especial) descarta, pois em um corpo em movimento (aproximadamente) inercial (sem acelerações) não se podem medir efeitos locais ( no próprio) de seu movimento. Em outras palavras, se estivermos encerrados em uma nave espacial sem janelas e movendo-se com velocidade constante, nenhum experimento físico interno ( inclusive ótico) vai poder nos revelar se a nave está parada ou em movimento!

Apesar de Michelson-Morley terem feito um experimento ótico que demonstrou este fato na virada do século XIX, Lattes afirmava (e com razão) que em seu experimento o feixe de luz não ia e voltava pelo mesmo caminho ,como no  famoso teste de Michelson-Morley, e que por conta desse fato, o efeito era cancelado neste último contrariamente ao que ele observara quando o feixe somente ia. Havia uma sensação na comunidade de física brasileira que ele estava errado em algum ponto. É isto mesmo, existe um certo peso dogmático na ciência quando um fato é corroborado por sucessivos experimentos e inclusive é suportado por uma teoria tão bela esteticamente quanto é a teoria da relatividade (principalmente a geral). Por esta razão é que não concordo com as idéias de Karl Popper sobre a construção da ciência através do processo de falseabilidade. São as paixões ,que nos movem primeiramente conforme ressalta Nietzsche, e o fenômeno de rebanho (que este não poderia aceitar) que estão no centro do comportamento humano, tanto de crítica quanto de apoio no processo de montagem do conhecimento científico.

Ao tocar nestas paixões e modismos Lattes despertou contra si verdadeira fúria. Não é preciso adicionar o fato que naquela época o povo brasileiro tinha a cabeça ainda bem mais colonizada que hoje em dia. O fato é que acabou se descobrindo o êrro na argumentação experimental de Lattes. O desvio com período de vinte e quatro horas era devido a variação de temperatura entre o dia e a noite que alterava ligeiramente a densidade do ar,e, por conseguinte, o índice de refração do mesmo, provocando o desvio adicional.

O que é emblemático neste caso, é o jogo que ocorreu cujos componentes envolveram preconceito, vaidades, ciúmes, sectarismos, e … ciência interessante! Humano, demasiadamente, humano….


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