A ciência, as evidências e a formulação de hipóteses

Do ScienceBlogs

A Teoria da Evolução não é uma crença. É um fato. Comprovado, dezenas, centenas de vezes, ao longo de 150 anos desde que Darwin e Wallace a propuseram.

Darwin e Deus, Deus e Darwin

Quando perguntam no que você crê, no que você diz que acredita? Na sorte. No destino. No amor. Em Deus. Mas quando perguntam se você acredita em alguém, das duas uma: ou você acredita, e portanto esse alguém diz a verdade, ou não, e este alguém está mentindo. Em uma tal situação, é necessário se provar que a pessoa que afirma algo diz a verdade ou não. Muitas vezes se determinar a verdade dos fatos, ou de argumentos apresentados, não é fácil. Por mais que se busquem argumentos e evidências.

A ciência busca evidências para confirmar hipótese ou propostas, tendo por base a coleta anterior de informações que levam à formulação de tais hipóteses ou propostas. Uma vez encontradas, tais evidências servirão para estabelecer uma maneira de como pode se entender um determinado fenômeno, ou um conjunto deles. Quanto mais evidências são encontradas para se confirmar a existência ou a compreensão de determinados fenômenos, tanto melhor estes poderão ser explicados. Ao conjunto de evidências, e suas inter-relações, que explicam um determinado conjunto de fenômenos dá-se o nome de teoria.

No decorrer da história da humanidade, teorias surgiram e foram sendo substituídas. À medida que se verificava que uma determinada teoria, utilizada para explicar um conjunto de fenômenos, não conseguia os explicar adequadamente, buscou-se novas idéias para formar novas teorias. Assim foi, por exemplo, o processo de conhecimento da constituição da matéria. O filósofo grego Demócrito (cerca de 460 a.C.) foi o primeiro a formular a idéia de átomo, como unidade indivisível que constitui a matéria. Na sua essência, as idéias de Demócrito sofreram poucas modificações até o século XVIII, quando John Dalton (1766-1844) as aprimorou, dizendo que existiam diferentes tipos de átomos, e que estes podiam se combinar formando diferentes substâncias. Além disso, Dalton afirmou que os átomos não podiam ser destruídos e que quando formavam substâncias, os átomos se combinavam em proporções bem definidas. Já no século XIX, J. J. Thomson (1856-1940) descobriu que os átomos eram constituídos por elétrons, muito menores, e sugeriu que os diferentes tipos de átomos teriam uma estrutura de um “pudim de ameixas”, onde as ameixas seriam os elétrons.

Entre o fim do século XIX e o início do século XX, Ernest Rutherford (1871-1937) estudou o comportamento dos átomos com experimentos de radiação e verificou que os átomos também possuíam partículas positivas, os prótons, e partículas neutras, os nêutrons. Além disso, seus experimentos permitiram afirmar que os prótons e os nêutrons seriam “responsáveis” por praticamente toda a massa de cada átomo. Assim, por exemplo, o átomo de hidrogênio mostrou ter um único próton e uma massa correspondente de 1 u.m.a. (unidade de massa atômica, que corresponde à massa em gramas de 6,02 . 1023 átomos de um determinado tipo). O oxigênio mostrou ter massa de 16 u.m.a., o nitrogênio de 14 u.m.a. Rutherford também afirmou que os prótons e os nêutrons estariam localizados no centro dos átomos, que teria uma carga positiva, e que os elétrons estariam em órbitas em volta do núcleo. O problema da teoria de Rutherford é que se os átomos comportam-se como pequenos “sistemas solares”, com elétrons girando em torno dos núcleos (de forma que a força centrífuga de movimento dos elétrons compensaria a atração eletrostática dos prótons), de acordo com a teoria da mecânica clássica de Newton os elétrons deveriam emitir energia radiante, perdendo energia e coalescendo com os núcleos, o que não foi observado. Logo, a teoria de Rutherford estava furada. Mesmo assim, Rutherford recebeu o Prêmio Nobel de Química em 1908, por suas investigações sobre a desintegração dos elementos e a química das substâncias radioativas.

Niels Bohr (1885-1962) deu continuidade aos estudos de Rutherford, e desenvolveu um modelo físico-matemático para explicar o comportamento dos elétrons. De acordo com a teoria de Bohr os elétrons se situariam em regiões bem específicas dos átomos, chamadas de orbitais atômicos. Uma vez que estavam situados nestas regiões, os elétrons apresentariam quantidades bem definidas de energia. Além disso, Bohr propôs que os elétrons apresentariam movimento em torno de seu próprio eixo, definido como momento angular, e também que os elétrons se comportariam como ondas se propagando em torno do núcleo do átomo em que se situam, sem perder energia e sem coalescer com o núcleo. A teoria de Bohr foi denominada de teoria da mecânica quântica, e teve como base as idéias de Max Planck (1858-1947). A teoria de Bohr permitiu explicar a decomposição da luz de determinados tipos de lâmpadas, e Bohr ganhou o Prêmio Nobel de Física em 1922.

Erwin Schröndinger (1887-1961) aprimorou a teoria de Bohr, estabelecendo um modelo que explicava o comportamento dos elétrons em termos de números quânticos, que justificariam não somente o comportamento dos elétrons,  mas também das ligações químicas entre átomos. Recebeu o prêmio Nobel de Física em 1933.

Ao longo da história, as pesquisas e contribuições de Lavoisier, John Dalton, Avogadro, Gay-Lussac, Berzelius, Cannizaro, Berthelot, Kekulé, Mendeleev, Boltzmann, Le Bel, Van’t Hoff, Thomson, Planck, Rutherford, Bohr, Schrondinger, de Broglie, Einstein e Heisenberg permitiram o acúmulo de evidências e a formulação de modelos que explicam o comportamento da matéria, e chegar a um consenso muito bem aceito sobre a estrutura da matéria. Assim, faz parte da formação de todo estudante do ensino médio conhecer as idéias básicas da teoria que explica a estrutura e o comportamento da matéria.

A história da teoria da evolução não é diferente. De maneira bastante simplista, nasceu com Aristóteles, Anaximander e Empedocles, foi posteriormente desenvolvida pelo biólogo afro-árabe Al-Jahiz, o filósofo persa Ibn Miskawayh, o filósofo chinês Zhuangzi, aprimorada por Pierre Maupertuis, Erasmus Darwin, John Ray, Lineu, Buffon, amadurecida por Lamarck, chegando à sua formulação geral mais aceita por Charles Darwin e Wallace. Porém foi bastante aperfeiçoada durante os últimos 150 anos, principalmente depois do surgimento da genética, da ecologia, da simbiose, e outras derivações biológicas, que levaram à formulação da Síntese Evolucionária Moderna por Julian Huxley, R. A. Fisher, Theodosius Dobzhansky, J.B.S. Haldane, Sewall Wright, E.B. Ford, Ernst Mayr, Bernhard Rensch, Sergei Chetverikov, George Gaylord Simpson e G. Ledyard Stebbins.

A teoria da evolução tem o mesmo status científico da teoria da estrutura da matéria, ou da teoria da mecânica quântica, e da teoria da relatividade de Einstein.

Esta longa introdução tem por objetivo mostrar que as teorias científicas se constroem de maneira extremamente consistente, sendo continuamente questionadas, testadas e verificadas, de maneira a confirmar sua consistência, seu caráter geral e sua falseabilidade.

Por isso, quando o editorial (3/4/2010) de um jornal como a Folha de São Paulo afirma que

“Brasileiros parecem ter discernimento intuitivo de que questões de ciência não competem com convicção religiosa”,

deve-se analisar tal afirmação de maneira a se entender se esta faz sentido ou não.

Faz sentido pensar se “questões de ciência competem com convicção religiosa”? Não, não faz simplesmente porque as religiões nunca foram objeto de estudo das ciências naturais (mas foram da filosofia, da história, da psicologia, da sociologia, da educação, etc.). A ciência não compete com a religião. Não é objetivo das ciências naturais verificar se Deus existe ou não, ou se as religiões fazem sentido ou não.

O editorial do jornal diz ainda que

“a maioria dos brasileiros (59%) combina a aceitação do processo darw
iniano com a fé na condução e supervisão divina, situadas num plano superior ao da natureza. Embora inverossímil aos olhos de quem for ateu, essa conciliação decrenças [o grifo é meu] não é absurda. Sugere, ao contrário, um discernimento intuitivo de que questões de ciência não competem com questões de convicção religiosa. São campos que correspondem a dimensões diferentes da consciência humana.”

Crença? A Teoria da Evolução não é uma crença. É um fato. Comprovado, dezenas, centenas de vezes, ao longo de 150 anos desde que Darwin e Wallace a propuseram. O discernimento intuitivo de parcela significativa da população brasileira parece ser bastante razoável, uma vez que, segundo o jornal, consegue fazer uma distinção entre ciência (evolução) e crença (Deus). Porém, o editorial do jornal não faz esta distinção. Seria cômico, se não fosse trágico.

O jornal também estabelece uma relação direta entre ciência e ateísmo, quando diz que

“UMA APAIXONADA predileção por besouros.” Essa foi a resposta de J.B.S. Haldane (1892-1964) quando lhe perguntaram o que a teoria da seleção natural revelava a respeito dos desígnios de Deus. O biólogo britânico, que era ateu, aludia de forma irônica à fantástica abundância de insetos coleópteros na natureza.

Pesquisa Datafolha publicada ontem revelou que apenas 8% dos brasileiros endossariam Haldane, ao concordar que os seres vivos são produto de lentíssima evolução na qual variações fortuitas, mas vantajosas à sobrevivência e reprodução, se disseminam e acabam por dar origem a novas espécies, mais adaptadas a seu ambiente. Seriam os darwinistas “puros”.

O fato do editorial iniciar com esta narrativa traz em sua mensagem o fato de Haldane ser ateu e o relacionar ao “darwinismo puro” (termo criado pelo jornal). Tal relação não existe. Ser ateu ou acreditar em Deus é uma questão de foro íntimo, de cada pessoa. A validade de teorias científicas independe de acreditarmos nelas ou não. Como o próprio editorial afirma, a ciência e a crença “são campos que correspondem a dimensões diferentes da consciência humana.” Logo, não podem ser considerados em um mesmo contexto.

Porém, a distinção “percebida intuitivamente” pela população não parece ser considerada em seu inverso, ou seja, “Brasileiros parecem ter discernimento intuitivo de que questões religiosas não competem com teorias científicas”. Seria esta afirmativa verdadeira? Aparentemente, não. Se 59% da população acredita que Deus interfere no processo evolutivo, fica evidente que não há uma distinção clara e perceptível de que a ciência se constrói com base no método científico e a crença é variável, de pessoa para pessoa, de acordo com seus valores, sua história pessoal e sua inserção social. São dois contextos bem diferentes.

Embora o “sincretismo brasileiro” entre a Teoria da Evolução e a crença religiosa à que se refere a Folha possa fazer sentido para muitos, este revela a falta de conhecimento por parcela significativa da população, que mistura, talvez inconscientemente,  ciência e religião para satisfazer questões de foro íntimo. Se, por um lado, tal “sincretismo” possa se revelar positivo no sentido de mostrar que a população conhece a Teoria de Evolução, por outro lado tal parcela da população não percebe que esta, no seu âmago, dispensa completamente a noção do sobrenatural, de um ser ou uma energia que direcione ou organize o processo evolutivo. Sendo assim, existe um claro paradoxo de conceituação e compatibilidade entre uma concepção de mundo e uma teoria científica, evidente pela falta de conhecimento sobre esta distinção. Como bem disse Sandro José de Souza, em texto publicado no dia anterior (2/4/2010) no mesmo jornal

“Esta corrente do criacionismo, o evolucionismo teísta, é a mais moderada, no sentido que aceita todas as evidências científicas, mas mantém Deus como agente causal. O evolucionismo teísta, no entanto, não pode ser tratado como ciência devido à sua natureza metafísica. A existência ou não de Deus não pode ser testada e por isso não é científica, e sua aceitação depende de um estado da mente chamado de fé. A evolução, por outro lado, é fato corroborado por evidências científicas acumuladas nos últimos 150 anos.”

Aonde está o problema?

Na educação formal, escolar. A educação escolar é a base para o indivíduo adquirir conhecimento em todas as esferas, bem como espírito de análise, crítico e de distinção. É importante para, justamente, perceber que temas de discussão e questionamento pertencem a diferentes esferas. Com este objetivo, o Conselho do Parlamento Europeu publicou em outubro de 2007 uma resolução do porquê o ensino de criacionismo deve ser restrito às aulas de religião, ao mesmo tempo em que se reforça a necessidade de um ensino de ciências aprofundado, como indicado no artigo 19 da resolução, transcrito a seguir:

The Parliamentary Assembly therefore urges the member states, and especially their education authorities to:

19.1. defend and promote scientific knowledge;

19.2. strengthen the teaching of the foundations of science, its history, its epistemology and its methods alongside the teaching of objective scientific knowledge;

19.3. make science more comprehensible, more attractive and closer to the realities of the contemporary world;

19.4. firmly oppose the teaching of creationism as a scientific discipline on an equal footing with the theory of evolution and in general the presentation of creationist ideas in any discipline other than religion;

19.5. promote the teaching of evolution as a fundamental scientific theory in the school curriculums.

Ainda citando Sandro J. de Souza, da mesma reportagem de 2/4

“(…) a predominância de uma visão teísta na população brasileira gera um risco de que assuntos da fé sobreponham-se a assuntos da ciência. Aulas de ciência devem se ater à ciência.
Temos visto figuras públicas manifestarem-se a favor da equiparação entre evolucionismo e criacionismo. Escolas brasileiras já ensinam criacionismo em aulas de ciência. Tal absurdo coloca em risco a formação de milhões de brasileiros.”

A falta de conhecimento para se distinguir método científico e teoria da evolução da crença religiosa é demonstrada pelos resultados da pesquisa realizada pelo Datafolha, publicados em reportagem do dia anterior (sexta feira, 2/4/2010). Segundo o jornal, os dados indicam que, dentre os ateus, “7% também se classificam como criacionistas da Terra jovem e 23% como partidários da evolução comandada por Deus.” Por definição, ateus não acreditam em Deus. Ou seja, existe até desconhecimento do que seja ser ateu.

Tal desconhecimento chega à beira de seu limite quando o criacionista Michelson Borges assinala em seu artigo (“Teoria é mal compreendida”), publicado na mesma página, da mesma edição, que

“Segundo o criacionismo, Deus criou os tipos básicos de seres vivos e eles sofreram modificações, dentro de limites preestabelecidos. Dizer que elas descendem de um mesmo ancestral unicelular comum é extrapolação.”

Se parte da Teoria da Evolução estivesse errada, por assumir que seres vivos não descendem de tipos básicos e que não sofrem modificações dentro de limites pré-estabelecidos, teria que ser imediatamente abandonada. Sem dó nem piedade. Não poderia mais ser aceita para explicar a biodiversidade do planeta Terra. Não poderia mais ser adotada para entender o processo de surgimento de viroses, de resistência bacteriana, de novas espécies de organismos vivos. Não poderia ser ensinada nas escolas.

O método científico é rigoroso, e se fundamenta em um questionamento constante, em contínua elab
oração e aperfeiçoamento, de maneira a trazer à luz o conhecimento sem que este tenha que se fundamentar em hipóteses mal formuladas, em justificativas parciais ou em idéias pré-concebidas. O método científico resulta de mais de 2000 anos de história da humanidade associado à história da cultura, da geração do conhecimento e busca do entendimento dos fenômenos naturais. Querendo ou não, é de longe a melhor forma de fornecer explicações sobre a validade (ou não) de conceitos, tais como os indicados por Michelson Borges: “informação complexa, aperiódica e específica” e “códigos zipados, encriptados, compartimentados e com uma lógica algorítmica”.

A distinção entre ciência e religião nos mostra que “uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa”, pois têm em sua essência pressupostos diferentes. Uma se fundamenta em experimentação, observação e verificação, e a outra em fé. O fato de cientistas serem católicos, muçulmanos, ateus ou budistas não interefere, em absoluto, na validade da ciência e do método científico. São duas concepções distintas, uma de visão de mundo pessoal a outra de geração de conhecimento e conhecimento de como os processos naturais funcionam. Por isso,  uma educação de qualidade, que permita formar cidadãos esclarecidos, é absolutamente imprescindível para o bom entendimento do que é ciência e do que é religião.


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