Fórum Brasilianas-Cemig: indústria criativa e incentivo governamental

Segmento cresce 10% a.a em Minas Gerais e deve ser avaliado como estratégico na retomada do desenvolvimento, avaliam palestrantes da abertura 
 
Foto de Glaucia Rodrigues. Da esquerda para a direita: Marco Antônio Castello Branco, Luis Nassif e Thiago de Azevedo Camargo
 
Jornal GGN – Políticas públicas e ações governamentais de apoio à Economia Criativa (EC) são fundamentais para que ideias possam ser transformadas em realidade. Esse foi o ponto central das discussões do Fórum Indústria Criativa Mineira, organizado pela Plataforma Brasilianas e a Cemig, na terça-feira (04), em Belo Horizonte.
 
Minas Gerais destaca-se hoje no país com empresas de segmentos criativos que crescem no ritmo de 10% ao ano, como é o caso de audiovisual/cinema, e de outros que dão respostas rápidas quando estimulados: startups de inovação tecnológica, software, aplicativos (Apps), vestuário, gastronomia e artesanato.
 
“O debate sobre uma maior clareza na definição de políticas públicas precisa ser retomado para a reconstrução do país”, pontuou o jornalista Luis Nassif, idealizador e coordenador do Brasilianas na abertura do evento. 
 
“O papel do estado e das estatais, e o desenvolvimento que deveriam proporcionar, costumam estar aquém do desejado. Em algumas áreas chega a atrapalhar mais do que a ajudar, mas em outras é fundamental para a sobrevivência de setores que precisam ser estimulados”, avaliou o diretor de Relações Institucionais e Comunicação da Cemig, Thiago de Azevedo Camargo, também convidado para a abertura do fórum. 
 
Para Camargo, é preciso tomar como referência os princípios que levaram Juscelino Kubistchek (JK) a criar a Cemig, baseados na importância da empresa para o desenvolvimento econômico e social de Minas Gerais.
 
O diretor assinalou que o setor de energia elétrica passa por uma grande transformação, com os processos de descarbonização, desburocratização e desregulamentação, o que fez com que a Cemig passasse a investir em eficiência energética e criação de novos produtos para o setor elétrico, com consultorias internas e externas.
 
Mas ao destacar a necessidade de mudanças diversas, como a burocrática, Camargo lembrou que são dificuldades que o Brasil enfrenta desde o Império Português, ilustrando com uma história: 
 
“Quando os alambiques do Rio de Janeiro prosperaram e o consumo de cachaça aumentou, havia uma cota estabelecida por lei para importar vinho de Portugal, que não era cumprida. Um burocrata de então decidiu resolver o problema com um decreto fechando as destilarias cariocas. A população se revoltou. Foi assim que ocorreu a primeira rebelião no Brasil, conhecida como a “Revolta da Cachaça”. E até hoje, segundo Thiago Camargo, é assim: “Quando se tem um problema, são criadas duas leis. E o país passa a ter três problemas”. Um quadro que precisa mudar.
 
Para o presidente da Companhia de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais (Codemge), Marco Antônio Castello Branco, a indústria criativa é caracterizada por produtos com conteúdo elevado, obsolescência rápida e baixa padronização. Surgem onde a economia de escala não é uma obrigação para aumentar geração de recursos, em setores específicos da economia do conhecimento, onde “viver a experiência” é o atrativo para o consumidor, como nas artes.
 
Ao contrário do que aconteceu nos séculos 19 e 20, quando se criou o mito de que a indústria criou riqueza, a tecnologia tem gerado pobreza. As descobertas vinham de dentro para fora, com a melhoria das máquinas. Mas eram inovações episódicas. 
 
“Agora, a inovação é constante e intrínseca, o que torna os produtos de altíssima obsolescência”, destacou na abertura.
 
O conteúdo de inovação é grande e incorporado rapidamente, aumentando a produtividade. E o que surpreende é que, enquanto o conhecimento passa a ser o maior instrumento de agregação, ocorre estagnação, pauperização, precarização e confrontos, como se vê nas ruas de vários países, a exemplo da França, em 2018, e do Brasil, em 2013, com explosões de protestos provocados por faíscas, como o aumento do preço de combustíveis e do transporte.
 
Castello Branco avaliou que isso ocorre porque a tecnologia não permite incorporar todas as categorias sociais no processo. É restrita e dominada por oligopólios e centros de poder que conseguem manipular outras camadas sociais, mas não as incorpora ao dia a dia do trabalho.
 
Apesar das ponderações feitas, o porta-voz da Codemge acredita na criatividade do brasileiro como diferencial, considerando os avanços nos polos tecnológicos de Minas Gerais. Nesse sentido, Castello Branco foi mais otimistas do que os outros debatedores da abertura: “O Brasil é um país que tem uma vibração diferente!”, garantiu.
 
Menos otimista, Luis Nassif ponderou que não se pode perder de vista a necessidade de apoio institucional e de políticas públicas favoráveis a essas regiões, o que não depende apenas de iniciativas individuais ou de grandes empresas:
 
“Cabe ao Estado estar atento também à formação de trustes, que matam a criatividade e a opinião quando concentram poder”.
 
Para exemplificar, ele lembrou que com uma base de clientes tão ampla o Facebook, por exemplo, impede a entrada de novos concorrentes: “A ameaça dos algoritmos facilita a manipulação de grupos políticos e sociais”, completou.  
 
Muitas questões a se pensar. Afinal, lembrando a Revolta da Cachaça citada por Thiago Camargo, aquele decreto prejudicou o Rio de Janeiro, mas fez com que as destilarias migrassem para Minas Gerais. Sorte dos mineiros!
 

 

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