O fiasco do chip brasileiro

Essa CEITEC pelo visto é a última de uma fila de tentativas mal-pensadas de se criar uma indústria de chips nacionais.

Não tenho prestado muita atenção, mas desde que chips foram inventados deve ter havido pelo menos umas 4 dessas tentativas, provavelmente mais. A primeira de que tenho notícia foi na década de 1970, baseada na Escola Politécnica da USP. Outra que lembro foi baseada no Centro de Tecnologia de Informática em Campinas. Ouvi rumores de outra tentativa ligada à Universidade federal do Rio Grande do Sul.

Em todos os casos, esses projetos grandiosos consumiram milhões de reais e morreram antes de atingir a produção comercial. E me arrisco a prever que o mesmo vai acontecer com a CEITEC, mesmo sem saber mais nada sobre o projeto.

O problema é que a fabricação de chips é apenas a ponta mais vistosa de um enorme icebergue de alta tecnologia. O que está dentro da fábrica de chips é apenas uma pequena parte do sistema. A produção de chips depende de uma indústria capaz de produzir produtos químicos ultrapuros, aparelhos mecânicos de enorme precisão, instrumentos eletrônicos e óticos avançados, etc, etc. E, principalmente, de um repositório de mão-de-obra especializada — técnicos e cientistas que dominam todas essas necessidades especiais.

O Brasil simplesmetne não tem essa base de tecnologia fina. Por trás de todos os projetos fracassados acima havia a pretensão de construir só a pontinha do icebergue, sem a base: construir diretamente uma fábrica de chips , pulando essas etapas “sem graça”. Infelizmente ninguém tem paciência (ou vontade política) de investir nessa base tecnológica. Especialmente na educação: o sistema educacional Brasileiro simplesmente não tem capacidade para formar os especialistas necessários para esse nível de tecnologia.

Por essa razão, projetos do governo para construir fábricas de chips inevitavemente atraem oportunistas e/ou irresponsáveis, que prometem o impossível para conseguir os milhões disponíveis. Se o governo cismar de investir um bilhão de reais em carros movidos a água, com certeza vai chover cientistas garantindo que a idéia é viável e oferecendo-se para chefiar o projeto.

Em comparação à fabricação de chips, a tecnologia necessária para conquistar o espaço é um empreendimento de “baixa tecnologia”. Os foguetes não tripulados usados hoje pelo primeiro mundo não são muito mais sofisticados que os da década de 1960. Um país que tem indústrias como a Embraer e Petrobrás deveria ser capaz de lançar seus próprios satélites. Os reveses do nosso programa espacial indicam que, nessa área também, leva quem promete mais. 

Prezado Jorge Stolfi,

Você escreve de Campinas, onde já morei e lutei, no final da década de 70, para implantar uma política industrial na área de semicondutores. Naquela época a USP estava à frente das universidades coreanas na tecnologia de memórias RAM. O CPqD da Telebrás era o terceiro maior centro de pesquisas em telecomunicações do planeta. O Brasil fabricava motores a jato e aviões de combate. Também dava seus primeiros passos na área de petróleo “offshore” e tinha uma das maiores indústrias navais do mundo. Dávamos nossos primeiros passos na tecnologia nuclear com esforço totalmente autóctone, e não com centrífugas compradas, como vi outro dia na imprensa. Tudo isso, como você sabe, foi pro saco. Governos canalhas e entreguistas destruiram seletivamente todo esse aprendizado e tivemos que reencontrar, nestes últimos anos, esses fios de conhecimento.

Posso até concordar com você que dificilmente nos tornaremos competitivos na área. Se você leu o artigo recente no Valor Econômico sobre a produção de células solares na Califórnia, vai se lembrar que mesmo um empreendimento com altíssima automação, situado no vale do silício e bancado por mais de um bilhão de dólares, quebrou porque não aguentou a competição chinesa. O propósito do CEITEC, não é competir em áreas quentes da fabricação de CIs, mas ocupar nichos de mercado. Um efeito colateral seria criar indústrias e conhecimento na área. Mais ainda, se quizermos desenvolver uma indústria de defesa, teremos que dominar a fabricação de CIs. Esta é, claramente, uma indústria onde o paradigma não é o preço final dos produtos, mas a confiabilidade do fornecedor. O episódio da aquisição dos caças pelo Brasil é bastante didático…


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