O Google e o gênio maligno

Por Gustavo Gollo

Uns séculos atrás, Descartes imaginou um gênio maligno, desses saídos de uma garrafa, a se divertir iludindo-nos, criando um mundo onírico, ilusório, no qual pensaríamos viver, com o intuito exclusivo de se divertir com a farsa.

A conjectura tinha um apelo mais retórico que real; tinha o propósito de dissipar qualquer dúvida eventual acerca da realidade de um mundo que nos tivesse sido presenteado por um deus sumamente bom.

Foi Philip Dick quem nos revelou, em fins do milênio passado, a possibilidade da matriz, de um mundo computadorizado indistinguível do real, no qual, provavelmente, estamos vivendo.

A malignidade do gênio cartesiano se resumia em sua natureza cômica, tratava-se de um ser divertido e curtidor, mas sem nenhuma graça aos olhos de muitos.
Os novos tempos nos acenam com malignidades inimagináveis, talvez, às criaturas pias de outros tempos, embora tamanha perfídia, como de costume, advenha de nossa própria natureza.

O engenho humano criou inúmeras maravilhas, estamos cercados por elas. Mas também criou a dominação, a escravidão, a tortura e muitos outros males. A dominação, o poder, é a origem de uma parcela considerável das mazelas humanas.

Com o propósito da dominação foi idealizado um programa de computador muito simples, mas custoso, quase impensável devido aos custos assombrosos. O programa consistia em interceptar todas as informações geradas na imensa internet, e descarregá-las em um recipiente (um disco) no qual poderiam ser vasculhadas, esquadrinhadas em busca de indícios de conspirações. A simplicidade do projeto consistia em aplicar as ferramentas tradicionais de busca no texto imenso obtido com a descarga da totalidade da rede. A dificuldade se baseava na imensidão do projeto. Descarregada toda a rede, bastaria procurar pelos indícios desejados, palavras como “bomba”, “explosivo” ou qualquer outra sob a mira do abelhudo, como nomes próprios, hábitos ou curiosidades idiossincráticas do próprio xereta. Esse programa surpreendente permitia bisbilhotar comunicações sobre pessoas, projetos, planos, e virtualmente qualquer assunto tratado através da rede. Tratava-se de projeto secreto de espionagem, guardado a sete chaves. A ideia verdadeiramente genial, ou maligna, consistiu na abertura do segredo. Entregava-se a ferramenta a todo o público, que se lambuzaria com a novidade. A glutoneria pela informação geraria os lucros astronômicos que financiariam com sobras a manutenção e o crescimento do empreendimento descomunal. Imersos, todos, na mesma sopa informacional, enredados, todos, na mesma teia descomunal e complexa, entregávamos aos bisbilhoteiros, com minúcias, satisfação e candura, todos os nossos hábitos; os que reconhecíamos e muitos outros. Tem certeza que sua câmera está desligada agora? Seu microfone? O microfone de seu telefone?

Talvez nos assustemos com a possibilidade de estarem bisbilhotando nosso telefone; compreendemos essa possibilidade. Desconhecemos as complexas determinações de padrões muito além de nossa compreensão, articuladas por máquinas gigantescas e poderosíssimas a bisbilhotar ininterruptamente os nossos hábitos. Não tenha dúvida de que certas peculiaridades de seu comportamento são conhecidas e previstas em muito mais detalhes do que você mesmo imagina. Você pode, por exemplo, e com muita facilidade, ser guiado até um determinado site, em um momento estabelecido, para clicar em certo ponto. Tenha certeza de que algumas previsões sobre o seu comportamento têm sido feitas com enorme precisão, até as respostas a suas dúvidas terão sido previstas. O futuro promete uma precisão ilimitada de nossos padrões de comportamento. Seremos controlados muito mais precisamente que ratinhos de labirinto. A imagem de um gato brincando com um ratinho ilustra com precisão a condição em que nos estamos metendo.

Temo um artefato que tenha sido criado com propósitos escusos, idealizado pelo poder, com vistas à dominação. O temor ao monstro será proporcional à familiaridade que se tenha com ele; os que não conseguirem distinguir sua face não o temerão.

Se percebêssemos a face do monstro imenso a nos perscrutar intimamente em tempo integral nos aterrorizaríamos.

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13 comentários

  1. Meu caso nao eh viver “em

    Meu caso nao eh viver “em terror”, claro.  Eu nao consigo ter um unico pensamento completo com comeco, meio, e fim, sem ser interrompido pelo governo dos Estados Unidos.  Isso ja tem mais de 5 anos. 24 horas por dia.  Ja teve dia que eu tinha que lidar com mais de 150 vibraacoes por minuto.  Em quaisquer 3 meses dos ultimos 5 ou 6 anos da minha vida que voce escolher, eu SOFRI mais envolvimento emocional deles do que da minha familia inteirinha nos ultimos 35 anos.  E essa putada, ate hoje, nao me ofereceu um unico “muito obrigado” nem vai oferecer:  eles sao gigolas em serie.

    Sim, gente.  A situacao descrita eh real.  A vitima foi eu.

  2. O ôvo ou a galinha?

    “Temo um artefato que tenha sido criado com propósitos escusos, idealizado pelo poder, com vistas à dominação.”

    Acredito que o artefato não tenha sido criado com esses propósitos escusos. Entretanto, estando “disponível”, a mente humana encontrou rapidamente uma maneira dele levar vantagem. De boas intenções o inferno está cheio, não é mesmo?

    No mais, compartilho das mesmas preocupações.

    Acrescento dois aspectos que não sei se estão claros para todos.

    Primeiramente, o de que uma vez exposta a informação a este gênio maligno, não há mais como dele retrirá-la.

    Em segundo lugar, o que pode levar muita gente a não perceber o tamanho da encrenca, é que a busca pelos perfis de comportamento, considerados “desviantes”, não é feita manualmente por um indivíduo, o que levaria um tempo enorme caso este estivesse interessado por uma pessoa, no meio da multidão, tão desinteressante quanto você.

    Isso pode ser feito automaticamente em tempo muito menor do que podemos pensar. Ainda que o esforço computacional seja, hoje em dia, descomunal para processar todas as informações de todo o mundo ao mesmo tempo, a pesquisa pode ser concentrada exclusivamente em você, leitor, quando, por exemplo, se vir diante de alguma disputa polêmica que possa vir a ser decidida por um ente ao qual delegamos, explícita ou implicitamente, o poder de “velar por nossa segurança”. A revelação sobre o teu “perfil” não se encontra necessariamente disponível a todos. Mas pode ser imediatamente acessada, “quando for considerada necessária” por este “gênio maligno”, guardião de todas as informações do universo.

    Tudo o que você já escreveu em seu correio eletrônico, sobre si próprio ou sobre seus familiares e amigos, usando as simpáticas ferramentas gratuitas a seu dispor, tais como yahoo, gmail, hotmail, etc, estão definitivamente guardadas para serem usadas quando você não quiser ou sequer imaginar: daqui a cinco minutos ou daqui a 12 anos. Quem sabe ao solicitar um visto de turista para “país amigo”?

     

     

     

    • Personagem independente

      Desde que o personagem seja independente, isto é, não utilize o mesmo IP, cookies, endereço de e-mail, amigos em comum… que  possam vinculá-lo ao ator.

    • Falsos negativos

      A máquina é burra. Qualquer pobre coitado com um comportamento fora dos padrões tem grandes chances de ser  imediatamente enquadrado como suspeito. 

      Seu filho nerd de, 12 anos, levou para a escola uma montagem eletrônica para mostrar orgulhoso ao professor? … suspeito. Principalmente se se chamar Mohamed.

      Foi para o aeroporto, após ter brigado com o vizinho, e se mostrando irritado? … suspeito. Mais ainda se tentar pegar um avião…  A câmera “inteligente” do aeroporto te enquadrará e te seguirá por todo o saguão. Vais perder o vôo durante uma seção de averiguação mais detalhada, com direito a uma revista íntima.

      Adquiriu livro técnico na Amazon sobre propelentes de foguetes? … suspeitíssimo.

      Não possui celular, não tem FB, não tuíta? … alguma coisa deve estar escondendo. 

      Comprou vinagre no supermercado e foi em seguida à loja de ferragens comprar arame para desentupir o encanamento? … Vai ter que explicar tudo, muito bem direitinho…

      Costuma ler livros de papel ao invés de versões digitais? … Ih… melhor não andar de bicicleta vestindo camisa vermelha… 

      Só baixa filmes europeus no netflix? …  no dia que baixar 1 filme chinês vai receber uma visita de um agente da secreta.

      Viajou para a Colômbia nas últimas férias, já tendo viajado para o Iran, 4 anos antes? …  Huum… alguma mensagem secreta com o código “Xá de coca”?…

      Comenta/consulta, com frequência, n(o) Blog do Nassif? … Esse tá lascado de vez.

      Tudo bem… viajei na maionese; exagerei um pouco, concordo…

      Ma non troppo.  Alguns casos são reais e não mero exercício de imaginação criativa.

       

       

       

    • Não apenas é plausível, a

      Não apenas é plausível, a Google o fez. É um sistema de busca de informações tão poderoso que é comumente mais rápido e fácil procurar informações em um site usando o Google do que usando os próprios índices e recursos de busca do site. Ela tem ainda a busca por similaridade de imagens e está aprimorando mecanismos para permitir encontrar facilmente frases faladas em arquivos de áudio ou vídeo.

      De fato, o serviço do Google se tornou tão popular e mesmo essencial que para muita gente ele é sinônimo da Internet. A Google é tão grande que, mesmo apenas fazendo computadores para uso próprio, é um dos maiores fabricantes de computador do planeta.

      Só discordo que a ideia tenha surgido de malícia. Mesmo assim devemos nos precaver; os serviços de busca são uma ferramenta, e como tal nem boa nem má, mas útil a ambos os propósitos.

      • Malícia

        A idéia não surgiu de malícia? Olha, de benevolência é que não foi. Tudo tem seu preço. Com algorítimos poderosíssimos e precisos, o sistema não é coisa de alma caridosa ou gente que não tenha o que fazer.

  3. Pessoas desinteressantes

    Só mais um detalhe:

    O comentário que fiz anteriormente, dirigido a você, leitor, pessoa desinteressante, deve ser dirigido mais precisamente a você, leitor, pessoa desinteressante, cuja vida é um livro aberto e que não tem nada a esconder, e que por isso não teme ter sua vida vasculhada.

    Aahhh… essas pessoas desinteressantes… são as mais interessantes.

  4. Big Brother

    É o Grande Irmão orwelliano espreitando através das teletelas. Google como ferramenta de busca é imbatível. Mas, para manter a pureza imparcial do resultado – e a privacidade – o buscador não pode navegar “logado”, isto é, não pode usar nenhum outro de seus serviços (GMail, G+, You2b, etc.). Logou, perdeu! Com a confluência cada vez maior entre bancos de dados, a privacidade escoa pelo ralo. O sistema tantará decidir tudo por nós, tirando nossa liberdade e desejo de escolha. Mas isso não acontece dolorosamente. É tudo bem sutil, as pessoas são suficientemente enganadas a ponto de desejar que as coisas sejam mesmo assim.

  5. E se houver um universo

    E se houver um universo paralelo, e o gato também estiver sendo espionado?

    Não sobrará pedra sobre pedra, Gato e Rato vão para o mesmo buraco. Já que assim preferiu, o bobo gato !

  6. Alternativa

    Descobri esses dias o site de buscas Duck duck go, é uma boa alternativa ao google, aparentemente não rastreia o usuário nem filtra os resultados.

  7. + comentários

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