Discutindo a universidade

Em um primeiro lugar concordo em gênero, número e grau com o texto – que é bastante equilibrado e, diria até,conservador: Nele é pedido o respeito à ordem jurídica, é defendida a autonomia universitária e aplicação, por simetria, do princípio democrático que nos é basilar. A Universidade, no Brasil, constitui-se no tripé ensino, pesquisa e extensão, trata-se de um projeto público que normalmente é gerido pelo Estado, mas também pode sê-lo por ente privado – e a falha que leva à hecatombe da maioria das universidades privadas é, justamente, a fiscalização errática do MEC que permite tais universidades privadas oferecerem cursos no mercado como se goiabadas fossem, o que sem dúvida, dó ou piedade levantam dúvidas sobre o fato se a presença de tais entes privados não resultariam, consequentemente, em uma mercantilização.

Ademais, a universidade, assim como qualquer unidade educativa, também consiste em uma estrutura de formação política, supor que os estudantes vão até lá simplesmente para encontrarem um lugar para ter informações técnicas enfiadas na sua cabeça é uma falácia: A universidade é um centro radical de formação e atuação política, de integração social, onde o próprio processo de absorção e desenvolvimento do conhecimento se dispõe como uma dupla hélice em relação ao primeiro ponto. A autonomia representa a competência para produzir suas próprias normas e assim dar a capacidade para a comunidade acadêmica decidir seu próprio destino sem, no entanto, estar desvinculada do projeto de país que é democrático, portanto, causa-me ojeriza saber que não há voto direto numa universidade como a USP.

Retomando o tópico da mercantilização contra o qual se insurgem ArantesOliveiraSouto Maior e Martins, temos a seguinte indagação: Por que ser contra esse processo? De uma maneira muito simples, porque a Universidade, tal como é constituída, trata-se de uma organização voltada para a correção das distorções sociais, políticas e econômicas, formando cidadãos – o que inclui formar profissionais também – e acordo com a demanda social. Quando se joga uma organização como essa na lógica do mercado, a distorção é certa: Cursos com menor procura são fechados ou passam a ter a mensalidade aumentada – se for o caso -, cursos com maior procura passam a ter vagas aumentadas, mas o que define é esse aumento e diminuição de vagas, necessariamente, é a demanda momentânea do mercado. Reduz-se, dessa forma, o humano ao dado estatístico, pior, um dado construído pelos setores que, oligopolisticamente, controlam a economia a despeito do futuro.

Sobre o texto acima, que comenta o texto dos professores, causa-me curiosidade como se pode usar tantos sofismas em tão pouco espaço. Dizer que não se conhece ninguém que defenda a privatização da universidade pública no Brasil é admitir que não se conhece o meio acadêmico brasileiro – ou a escalada que está em curso na USP ou o projeto ratasqueiro que arruinou com a PUC-SP -, o que, no entanto, não parece um caso: Trata-se de um figura retórica que pretende jogar o descalabro corriqueiro que corre à boca pequena, mas é escandaloso demais para ser dito em público, na conta da paranoia alheia. Vivemos num mundo de pessoas cândidas que perseguem o bem comum e todos os absurdos que nos cercam são produto da mente de sonhadores irresponsáveis. Claro. O comentário também arranja aquela velha desqualificação contra os movimentos de reivindicação: Na dúvida jogue neles a pecha de elitistas e alheios à realidade, se forem pobres digam que são revoltados pela condição, se são “de classe-média” diga que são desocupados – enfim, adeque o rótulo ao substrato social do reivindicante e desconstrua o ethos dele. Outro ponto que me causa espécie é a maneira como ele trata a greve, quem decide se a greve é ou não legítima são aqueles que estão no movimento, supôr que existe uma razão maior por detrás disso só é possível caso se aceite a premissa que existe uma simetria entre empregado e empregador, o que, pela própria condição deles, já se supõe logicamente impossível.

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