Artes do Ameno, por Jean Pierre Chauvin

Artes do Ameno, por Jean Pierre Chauvin

Há tempos, a maior emissora televisiva do país rebaixou o tom com que os jornalistas se dirigem ao telespectador. Talvez em função de maior audiência; ou, quem sabe?, por subestimar seu público cativo, simplesmente.

Dia desses, uma mulher, que já atuou como âncora do maior Jornal da casa, gastou um bloco inteiro de seu programa de variedades a discorrer sobre a melhor forma de posicionar o papel higiênico no dispositivo correspondente.

Hoje, 21 de julho de 2018 d.C., o apresentador, que já foi âncora da MTV, desperdiçou um bloco inteiro do programa de amenidades para discorrer sobre a montagem de uma caixa (que custaria “menos de R$ 15,00”) com pedaços de papel, rolo de espuma (para melhor espalhar a cola) e fita adesiva.

O que tais episódios têm em comum? O fato de sobrevalorizarem assuntos mínimos e atividades inúteis, como se os apresentadores e convidados estivessem efetivamente preocupados com coisas tão pequenas.

No primeiro caso, a pauta estava tão abaixo da mediocridade, que ensinar a botar o papel no lugar rendeu discussões pretensamente graves ao vivo (como se estivéssemos a prestigiar o debate acirrado entre um grupo de filósofos ou médicos ou engenheiros etc), mas recheadas de gargalhadas, igualmente afetadas, dos ilustres “especialistas”.

No segundo caso, o próprio apresentador passou a interferir no trabalho da artesã que convidou — talvez para acelerar o processo… Uma das cenas mais patéticas envolveu a filmagem in close do incrível sistema trava e destrava do fecho que acompanhava a caixa. Para ficar bem ex-pli-ca-di-nho, o fecho foi acionado repetidas vezes, como se se tratasse de técnica jamais vista.

Que a referida emissora subestime a sensibilidade e inteligência de metade dos brasileiros, desde a década de 1960, não seria de se estranhar: ela parece acompanhar o ritmo e o nível de quase todos os canais com maior audiência.

O que provoca desconforto é constatar que os televisores da maioria das padarias continuem ligados e, pior, sintonizados nesse canal (não que os concorrentes façam melhor).

Porém, maior espanto, mesmo, é constatar que o mesmo público (que finge não se importar com as “atrações” matinais) veja grande diferença entre tais programas de variedades e o Jornal exibido durante o horário, dito “nobre”, a fingir verdades em nome do ‘bem”, da “liberdade”, da “isenção” e da “moral”.

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2 comentários

  1. Na mosca!

    Senti exatamente isso ontem, fui cortar o cabelo aqui na Cardeal e na TV do salão a TV ligada em reportagens e entrevistas toscas sobre acontecimentos toscos enquanto vai se entregando o pré-sal, as riquezas nacionais, etc. e ninguém ouve falar disso nas tevês! Fiquei vendo aquela situação e me inquietei na hora. vi que nem todo mundo prestava atenção realmente na TV, que funciona ali também como pano de fundos das conversas de amenidades. Uma tagarelice de redundâncias. Que tal propormos a elaboração de um projeto de lei para que todos esses ambientes de atendimento ao púbico como salas de médicos, escritórios, restaurantes, salões de beleza reproduzam canais de tevê que tenham programação de temas de interesse público, de interesse coletivo, fundado em noções de cidadania e participação cidadã na gestão pública?

  2. Trata-se do processo de

    Trata-se do processo de imbecilização das massas. Chegará o dia, não distante, em que essa TV vai oferecer merda em lata e haverá demanda.

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