Se não acontecer um beijo na boca entre Félix e Niko no fim da novela…

Eu admito que não aguento mais esse papo de “vai ter ou não vai ter beijo gay” em quase todo fim de novela (no caso agora, entre Félix, personagem de Mateus Solano, e Niko, personagem de Thiago Fragoso, na novela das nove “Amor à Vida”). Aumenta a pressão sobre os envolvidos, sobe a responsabilidade do autor e sinto que ficamos mais distantes de ato tão simplório.

Sabemos que jovens gays cansam de ver beijo hetero em toda parte, em casa (com pais que ainda se amam), em shoppings, cinemas, festas… em micaretas, então, é overdose. Nunca nenhum me disse que “virou a casaca” por isso.

Mas os fundamentalistas, farsantes e deturpadores vêm com a ideia de que crianças não podem ver tal beijo que irão se influenciar. A única influência real que, acredito, um beijo gay em uma novela da Globo teria na sociedade diz respeito à uma maior aceitação da diversidade, à uma compreensão de que existem diferentes formas de amor e à criação de uma certa “resistência” contra ódios fabricados e estúpidos. Talvez seja exatamente isso que os fundamentalistas querem evitar.

Não sou, claro, contra o beijo na novela, mas se for ao ar uma bitoca, um estalinho, ainda mais pra terminar a história de um casal desses, vou ficar muito irritado. Se houver beijo, que seja o dos apaixonados, intenso, cheio de sentimento, exposto.

Mas se ficarmos sem o beijo (mais uma vez), devemos ficar felizes pelo que o Félix fez por nós, o que não foi pouco (inclusive quando encontrei o autor da trama, Walcyr Carrasco, na entrega do Prêmio Rio Sem Homofobia, no fim do ano passado, fiz questão de cumprimentá-lo pelo brilhante trabalho feito com o personagem). Ele apresentou o drama que vivemos, o pânico de sair da cristaleira, de assumir para si mesmo e para os outros, o medo de amar, de envolvimento… afinal, crescemos achando que todos que nos amam um dia irão nos largar, porque somos “mariconas safadas” no imaginário popular.

Se não tivermos o beijo, devemos lembrar das inúmeras cenas de carinho do Félix com Niko, por exemplo (segurando nas mãos um do outro, olhando dentro dos olhos com intensidade e emoção à flor da pele, com uma música linda e romântica tocando ao fundo – aliás, a música, “Proud”, da cantora inglesa de soul Heather Small, é a mesma canção emblemática do seriado canadense sensação no meio gay mundial “Queer As Folk”, que foi exibido aqui como “Os Assumidos”). Devemos lembrar também das lindas cenas do Félix com o personagem de Lucas Malvacini, Anjinho (mãos no rosto, acariciando a barba)…

Há quem ache que as cenas longas (e eram longas) entre dois homens gays se tocando com sensibilidade e emoção, como foram exibidas, enquanto diziam lindas frases um para o outro, são mais provocadoras de transformação do que a própria cena esperada mostrando o encontro de lábios.

Sou daqueles, porém, que acredita que já está na hora da Rede Globo acabar com esse tabu. Acabamos de ver uma profusão de beijos lésbicos no Big Brother Brasil 14, já tivemos beijo no SBT, na MTV… falta a emissora que está em todos os lares dar o mais aguardado de todos. Tenho a impressão que é um selo de mudança social.

Acredito que a falta do beijo será mais marcante e agressiva que se ele acontecer. Os personagens Félix e Niko são tão apaixonados e carinhosos um com o outro… Se a Globo não gravar e exibir, essa falta, esse buraco afetivo na história desses personagens específicos será a marca da covardia da emissora, a prova de seu atraso em relação aos novos tempos. Ela manterá sua pecha de “medrosa”, sempre se pautando por pesquisas conservadoras, pois por toda parte percebo como o beijo é esperado. Minha tia de 75 anos, por exemplo, aguarda ansiosamente essa cena. Jovens de 13 anos acham uma bobagem esse beijo não ter acontecido até hoje; afinal, na geração deles, cansam de ver em festas e até na escola.

O brilhante trabalho de Solano fez dele o grande mocinho e, como o próprio autor da acaba de declarar, Niko (Thiago Fragoso) “foi a grande heroína dessa novela”.

Na ansiosa espera pelo último capítulo nessa sexta, mando um recado para o Walcyr Carrasco: querido, entre pra história. A bola é sua, está na porta do gol. CHUTE !

Eliseu de Oliveira Neto é psicanalista, gestor de carreiras e professor de Pós-Graduação

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2 comentários

  1. Torcendo pelo Amigo

    (inclusive quando encontrei o autor da trama, Walcyr Carrasco, na entrega do Prêmio Rio Sem Homofobia, no fim do ano passado, fiz questão de cumprimentá-lo pelo brilhante trabalho feito com o personagem)

    Que isso, propaganda do amigo?

    Comecei a ler com interesse os seus argumentos até perceber o que a Analú já tinha alertado abaixo. Está faltando Ibope à Globo?

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